Hospital Nossa Senhora das Graças capacita 49 profissionais em cuidados paliativos

O Hospital Nossa Senhora das Graças, em Canoas (RS), reuniu 49 profissionais em capacitação de cuidados paliativos conduzida pelo IMCELER em 8 de setembro de 2026. A atividade, no formato de grupo focal, integra a etapa de educação continuada do Projeto de Cuidados Paliativos da instituição e reuniu, na mesma sala, as categorias que sustentam o cuidado à beira do leito nas 24 horas do dia.
A condução foi da enfermeira Sâmia Faria, coordenadora de novos projetos do IMCELER — instituto multiprofissional de telemedicina de alta complexidade, gestão de linhas de cuidado e educação continuada — e especialista em Cuidados Paliativos. O encontro dá sequência à aula inaugural de sensibilização realizada em 27 de agosto de 2026 e à etapa de grupos focais iniciada no início de setembro.
A composição do grupo revela quem sustenta o cuidado paliativo na rotina hospitalar
A distribuição dos participantes é, por si só, um retrato do desenho assistencial da linha de cuidado: 22 enfermeiros, 20 técnicos de enfermagem, três assistentes sociais, duas psicólogas e a diretora assistencial do hospital.
A enfermagem respondeu por 42 dos participantes. Não é um desequilíbrio — é uma decisão coerente com a natureza do cuidado paliativo hospitalar. É o enfermeiro quem avalia necessidades físicas, psicossociais, espirituais e culturais e coordena o plano de cuidados; é o técnico de enfermagem quem monitora sinais e sintomas, executa os cuidados prescritos e comunica alterações ao enfermeiro. A janela de identificação de um paciente com necessidade paliativa abre e fecha, na prática, dentro de um plantão — e quem está nesse plantão é, majoritariamente, a equipe de enfermagem.
O Parecer Normativo nº 1/2026 do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), aprovado em fevereiro de 2026, delimitou justamente essas atribuições, esclarecendo o conceito de cuidados paliativos e normatizando a atuação de cada categoria da equipe de enfermagem na prática. Capacitar 42 profissionais de enfermagem de uma só instituição é, portanto, responder a uma exigência normativa recente com a formação que ela pressupõe.
Assistentes sociais e psicólogas na mesma sala tornam o cuidado efetivamente multiprofissional
A presença de três assistentes sociais e duas psicólogas no grupo focal responde à dimensão do cuidado paliativo que protocolos clínicos isolados não alcançam. A definição adotada pela Organização Mundial da Saúde descreve a abordagem como prevenção e alívio do sofrimento em suas dimensões física, psicossocial e espiritual — do paciente e de sua família.
Na rotina hospitalar, isso se traduz em tarefas concretas e frequentemente invisíveis nos indicadores tradicionais: a conferência familiar que alinha expectativas antes de uma decisão de proporcionalidade terapêutica, o mapeamento da rede de apoio que determina se uma alta é viável, o acesso a direitos e benefícios sociais que sustentam o cuidado domiciliar, o acompanhamento do luto antecipatório. Quando essas categorias participam da mesma discussão que a equipe de enfermagem, o plano de cuidados deixa de ser uma soma de condutas paralelas e passa a ser um plano único.
A presença da direção assistencial converte a capacitação em decisão institucional
A participação da diretoria assistencial no mesmo encontro tem peso que ultrapassa o simbólico. Linhas de cuidado que dependem apenas da adesão individual de profissionais motivados não sobrevivem a trocas de plantão, férias e rotatividade. Linhas de cuidado com patrocínio explícito da gestão convertem-se em fluxo, protocolo e indicador.
Para o diretor técnico de outro hospital que lê este relato, esse é o ponto transferível: a etapa formativa funciona melhor quando a gestão está na sala, e não apenas na assinatura do projeto.
O grupo focal é a quarta das seis etapas de implantação da linha de cuidado
O percurso conduzido pelo IMCELER organiza a implantação de uma linha de cuidado em seis etapas encadeadas: tracing da trajetória do paciente, formação do time, definição de protocolo e fluxo, educação continuada, indicadores e mentoria. A capacitação da equipe multiprofissional ocupa a quarta posição — depois do mapeamento e do desenho do fluxo, porque a formação precisa ter objeto concreto, e antes dos indicadores, porque só se mede aquilo que a equipe já está apta a executar.
O formato escolhido também não é neutro. Em aula expositiva, o profissional recebe o conceito; em grupo focal, ele o confronta com a rotina que conhece. O encontro é, ao mesmo tempo, atividade formativa e instrumento de diagnóstico: ao ouvir as categorias em conjunto, a coordenação do projeto identifica onde persistem dúvidas, que barreiras culturais ainda operam e quais pontos do fluxo precisam de mais clareza antes da entrada em operação.


Para a gestão hospitalar, formar a equipe é reduzir variabilidade
O argumento da capacitação, na perspectiva da direção técnica, é de previsibilidade. Sem repertório comum, decisões sobre proporcionalidade terapêutica, comunicação de prognóstico e definição de objetivos de cuidado são tomadas caso a caso, por profissionais diferentes, com critérios não explicitados e registro heterogêneo em prontuário.
Essa dispersão tem custo em três frentes simultâneas: condutas divergentes para pacientes clinicamente equivalentes, dificuldade de planejamento de recursos — sobretudo de leitos críticos — e ausência de documentação padronizada das decisões compartilhadas com paciente e família, o que fragiliza a instituição do ponto de vista da segurança jurídica.
Há também o contexto normativo. A Portaria GM/MS nº 3.681, de 7 de maio de 2024, instituiu a Política Nacional de Cuidados Paliativos no âmbito do Sistema Único de Saúde e estabeleceu que a abordagem deve ser ofertada em todos os pontos da Rede de Atenção à Saúde. Para o hospital de referência regional, a linha de cuidado deixou de ser diferencial opcional e passou a integrar a expectativa regulatória sobre a instituição.
Próximos passos: protocolos em operação, indicadores e mentoria
Concluída a etapa formativa, a implantação avança para a operação dos protocolos com acompanhamento por indicadores e para o ciclo de mentoria das equipes locais. As medidas previstas seguem a lógica de gestão baseada em valor que orienta as linhas de cuidado do IMCELER e incluem o tempo entre a identificação da necessidade e o primeiro atendimento especializado, a proporção de pacientes elegíveis efetivamente avaliados, a documentação de objetivos de cuidado em prontuário e o controle de sintomas ao longo da internação.
O desenho da parceria mantém o protagonismo na equipe do hospital. O objetivo não é criar dependência de suporte externo, mas habilitar os profissionais do Hospital Nossa Senhora das Graças a identificar, discutir e conduzir esses casos com repertório comum, com o IMCELER atuando como parceiro técnico na estruturação, na formação permanente e no acompanhamento por indicadores.
Uma linha de cuidado se mede pela equipe que a sustenta
Entre o texto de um protocolo e o cuidado que chega ao paciente há sempre uma equipe. Ao levar 49 profissionais de cinco categorias para a mesma discussão, o Hospital Nossa Senhora das Graças fez uma escolha sobre onde investir para encurtar essa distância.
Para hospitais de referência regional, a demanda por cuidado paliativo hospitalar cresce de forma consistente com o envelhecimento populacional e o aumento da prevalência de condições crônicas. Responder a ela com organização, critério e registro adequado é, cada vez mais, um atributo de qualidade institucional — reconhecido por pacientes, famílias, corpo clínico e fontes pagadoras.
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