Saúde mental médica e telepsiquiatria: painel do Simers reúne UFRGS, PUCRS e IMCELER

A crise de saúde mental na comunidade médica e o papel da telepsiquiatria nas emergências reuniram especialistas do Simers, da UFRGS, da PUCRS e do IMCELER em painel no Museu de História da Medicina do Rio Grande do Sul (MUHM), em Porto Alegre. O encontro foi promovido pelo Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) durante o Setembro Amarelo. Quatro psiquiatras discutiram uma pergunta que atravessa a formação e a prática da medicina: quem cuida de quem cuida?
O local tem peso simbólico para o tema. O MUHM foi instalado em 2007 no prédio histórico do Hospital Beneficência Portuguesa e nasceu de uma iniciativa do Simers para preservar a história da medicina gaúcha. A condução ficou a cargo do psiquiatra Ricardo Nogueira, vice-presidente da Associação dos Amigos do Museu de História da Medicina (AAMUHM) e coordenador do Núcleo de Psiquiatria do Simers. Nogueira apresentou a noite como o início de um trabalho contínuo, e não como um evento isolado.
Adoecimento mental começa na formação médica e se agrava na residência
A primeira palestrante foi a psiquiatra e psicanalista Ana Margareth Siqueira Bassols. Ela é professora associada do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Faculdade de Medicina da UFRGS e preceptora da residência em Psiquiatria da Infância e Adolescência do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, e presidiu o Centro de Estudos Luís Guedes (CELG) entre 2015 e 2017. Sua tese de doutorado estudou a saúde mental de estudantes de medicina da UFRGS no primeiro e no sexto ano do curso. Segundo a professora, o resultado contrariou sua hipótese inicial: os sintomas de ansiedade e depressão eram mais frequentes na entrada do curso do que na saída.
Ana Bassols relacionou esse achado à transição da adolescência para a vida adulta, ao afastamento da família e às dificuldades financeiras de parte dos ingressantes. A partir da pesquisa surgiu o projeto de extensão Pega Leve, que ela coordena na UFRGS. Entre as recomendações finais, a professora citou ambientes de estudo e trabalho saudáveis, redes de apoio fortalecidas e planejamento de carreira. Ela também pediu que as instituições de ensino revejam a forma como tratam seus alunos.
O segundo palestrante foi Lucas Spanemberg, decano associado da Escola de Medicina da PUCRS, coordenador do Programa de Psiquiatria Intervencionista do Hospital São Lucas da PUCRS e doutor em Psiquiatria e Ciências do Comportamento pela UFRGS. Ele apresentou um levantamento realizado em 2023 com 1.560 estudantes das 20 escolas médicas do Rio Grande do Sul. Segundo ele, o artigo está em revisão na BMC Medical Education. Os números apresentados foram: 64% dos estudantes acima do limiar de ansiedade; depressão e burnout em cerca de metade da amostra; e apenas 21% sem rastreio positivo em nenhum dos indicadores avaliados. Numa segunda pesquisa, com 261 médicos residentes, o psiquiatra relatou jornada média de 71,6 horas semanais.
Para Spanemberg, alguns traços que conduzem à medicina podem se tornar fatores de risco, como perfeccionismo, autoexigência e autossuficiência. Ele citou a automedicação, o medo de repercussão profissional e as “consultas de corredor” entre colegas. Como referência internacional, apresentou a Fundació Galatea, criada em 2001 na Catalunha a partir do Programa de Atenção Integral ao Médico Doente (PAIMM). Também descreveu o Mentes Med, programa recém-estruturado na Escola de Medicina da PUCRS, e propôs a criação de uma rede gaúcha de saúde mental médica, permanente e independente de mandatos. “Cuidar de quem cuida é um compromisso ético, institucional e coletivo”, afirmou.
Burnout em médicos é fenômeno ocupacional e exige resposta institucional
A psiquiatra Liliane Dias de Lima foi diretora do Hospital Psiquiátrico São Pedro, primeira instituição psiquiátrica de Porto Alegre, por cinco anos, até se aposentar em outubro de 2024. Especialista em psiquiatria, psicogeriatria e dependência química, com mestrado e doutorado em psicologia, ela destacou que o burnout é classificado na CID-11 como fenômeno ocupacional, e não como doença. O quadro é marcado por exaustão, distanciamento do trabalho e sensação de ineficácia.
Segundo a psiquiatra, o burnout não se confunde com depressão, embora os dois possam coexistir. A diferença está na origem: o burnout decorre do desequilíbrio entre a carga profissional e as condições oferecidas pela instituição. Ela alertou para o presenteísmo e observou que uma folga de fim de semana não resolve o quadro. Sua mensagem final: “Estar exausto não tem a ver com falta de resiliência nem com falha de caráter.”
Telepsiquiatria amplia o acesso ao especialista nas emergências hospitalares
Encerrando as palestras, a psiquiatra Larissa Soares Frota falou sobre prevenção do suicídio e telemedicina em psiquiatria. Ela tem residência pelo Hospital Mãe de Deus, formação em terapia cognitivo-comportamental e experiência em preceptoria, e coordena o serviço de psiquiatria do IMCELER. Durante a abertura, Ricardo Nogueira lembrou que Larissa foi sua residente quando ele coordenava o programa de residência do Mãe de Deus.
A palestrante partiu da realidade gaúcha. Segundo a Secretaria Estadual da Saúde, a taxa de mortalidade por suicídio no RS cresceu 47,7% entre 2015 e 2023, de 10,88 para 16,07 por 100 mil habitantes, o maior valor da série histórica. Larissa destacou que muitas dessas mortes são evitáveis, já que parte das vítimas havia passado por serviços de emergência ou dado sinais prévios.
Como evidência, citou o estudo SUPRE-MISS, da Organização Mundial da Saúde, que acompanhou 1.867 pessoas atendidas após tentativa de suicídio em emergências de oito hospitais de cinco países, incluindo Campinas, com menor mortalidade no grupo que recebeu intervenção breve e contato de seguimento. Citou também a meta-análise de Hagi e colaboradores no British Journal of Psychiatry (2023). O trabalho reuniu 32 estudos com 3.592 participantes e não encontrou diferença significativa entre telepsiquiatria e atendimento presencial no conjunto dos diagnósticos.
A psiquiatra apresentou ainda o programa estadual da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, lançado em 2009. Nele, pacientes avaliados por telepsiquiatria na emergência tiveram maior acompanhamento ambulatorial em 30 dias (46% contra 16%) e em 90 dias (54% contra 20%) do que o grupo controle. Para Larissa, onde o especialista não está presente, a telemedicina não é modernização: é ponto de acesso. A Resolução CFM nº 2.314/2022 reconhece a teleinterconsulta como uma das modalidades regulamentadas.
Como o IMCELER aplica a teleinterconsulta psiquiátrica em hospitais parceiros
Na parte final, a palestrante apresentou a experiência do IMCELER, instituto multiprofissional de telemedicina de alta complexidade e implementação de linhas de cuidado. Segundo ela, a telemedicina do instituto já está presente em 28 hospitais. O IMCELER opera o TelePsiquiatria®, serviço de telemedicina em psiquiatria que oferece teleinterconsulta 24 horas aos médicos de emergência de hospitais parceiros, integrada à capacitação das equipes locais.
No modelo descrito, o médico da emergência discute o caso em tempo real com o psiquiatra, em qualquer horário. Os dois decidem em conjunto a avaliação de risco, a medicação e o destino do paciente, com registro conforme a regulamentação. Antes do início da assistência, as equipes recebem aulas de emergências psiquiátricas, e o instituto apoia a construção de protocolos. Larissa citou um hospital privado de Maceió (AL) que não tinha protocolo de agitação psicomotora. Nesse hospital, o IMCELER atua em três frentes: clínica, neurologia e psiquiatria. A capacitação foi feita presencialmente. Segundo a psiquiatra, o comportamento suicida tem sido o principal motivo de acionamento, com demanda relevante fora do horário comercial.
Entre os benefícios, Larissa citou mais segurança para o médico da ponta, menor necessidade de transferências e maior respaldo técnico e jurídico para equipe e hospital. Ela ressaltou que nenhum desses ganhos depende de equipamentos novos, e sim de um especialista disponível do outro lado. A mesma lógica de teleinterconsulta sustenta o TeleAVC®, serviço de telemedicina em neurologia do IMCELER.


Próximo passo: rede permanente de saúde mental para médicos no RS
No debate final, Ricardo Nogueira anunciou a formação de um grupo para redigir um projeto voltado inicialmente a médicos, residentes e estudantes de medicina. O grupo deve articular instituições como PUCRS, Hospital de Clínicas e Grupo Hospitalar Conceição, e buscar financiamento junto a entidades do setor. Participantes sugeriram ampliar a iniciativa a outras categorias da saúde em etapas futuras.
O painel deixou uma constatação clara: o sofrimento psíquico de quem cuida é um problema estrutural. Ele exige respostas estruturais, com serviços confidenciais, cultura institucional de segurança psicológica e acesso ao especialista onde ele ainda não chega. Num estado com taxas de suicídio historicamente elevadas e psiquiatras concentrados nos grandes centros, combinar redes de cuidado com telemedicina especializada tende a ganhar espaço na agenda de gestores e entidades médicas.
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