Linha de cuidado do AVC: Paraíba mobiliza 16 hospitais para descentralizar o tratamento

João Pessoa (PB), 9 de setembro de 2026 — A Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba (SES-PB) reuniu diretores-gerais e diretores médicos de 16 hospitais da rede estadual, no auditório do Hospital da Mulher, em João Pessoa, para consolidar o novo desenho da linha de cuidado do Acidente Vascular Cerebral (AVC) no estado. O encontro marcou a passagem de um programa estudado por mais de um ano para sua fase de execução, com apoio técnico convidado do IMCELER, instituto de telemedicina especializada e gestão de linhas de cuidado.
Promovido pela Secretaria Executiva de Gestão da Rede de Unidades de Saúde em articulação com a Gerência Operacional da Rede de Atenção às Urgências e Emergências (GEAE), o Encontro de Gestores tratou de um problema que é, ao mesmo tempo, clínico e administrativo: por que hospitais que já têm tomógrafo, equipe e trombolítico disponível ainda tratam poucos pacientes na fase aguda do AVC.
Mais de um ano de planejamento antes da virada de chave
A abertura foi conduzida pela secretária executiva de Gestão da Rede de Unidades de Saúde, Dra. Tália Sales, que contextualizou o percurso do programa. “Faz mais de um ano que a gente está na fase de planejar e de estudar, e apesar disso a gente já evoluiu muito. Algumas unidades já têm experiências extremamente ricas para compartilhar”, afirmou, citando os avanços observados em Monteiro e Catolé do Rocha, unidades que passaram a realizar trombólise.
A secretária defendeu que a qualificação alcance toda a cadeia hospitalar, e não apenas as equipes assistenciais. “A gente precisa treinar todo o corpo do hospital: recepção, segurança, porteiro, maqueiro, pessoal de apoio”, disse, ao relatar casos em que profissionais da linha de frente administrativa reconheceram sinais de AVC e aceleraram a entrada do paciente no protocolo.
Tália Sales lembrou aos diretores que uma em cada quatro pessoas terá um AVC ao longo da vida e cobrou deles o papel de multiplicadores. “O AVC é o agravo agudo mais tempo-dependente que nós temos. Se todo mundo tem a consciência de que tem que correr para resolver, fica tudo muito mais fácil”, afirmou.
Descentralizar é encurtar a distância entre o paciente e o trombolítico
A concepção e a coordenação geral do projeto estão a cargo da gerente operacional da Rede de Atenção às Urgências e Emergências, Priscilla Farias, responsável por articular municípios, SAMU, UPAs e rede estadual em um fluxo único. A execução técnica da linha de cuidado ficará sob coordenação de Ana Luísa Castelo, coordenadora estadual da Linha de Cuidado do AVC, apresentada aos gestores como ponto focal permanente da rede.
A lógica da descentralização é aritmética. Em um quadro em que cada minuto de artéria ocluída corresponde à perda estimada de cerca de 2 milhões de neurônios, concentrar o atendimento na capital significa converter distância geográfica em incapacidade permanente. Antes do encontro, a equipe da SES-PB já havia percorrido unidades como os hospitais de trauma de João Pessoa e Campina Grande, Monteiro e Catolé do Rocha, levando a discussão diretamente aos serviços.
Os números que sustentam a prioridade
O painel técnico apresentou o cenário que justifica a decisão. O AVC segue como a doença que mais mata no Brasil, com cerca de 100 mil óbitos anuais. Entre os brasileiros que sobrevivem a cada ano, foi apresentado ao grupo que aproximadamente 70% não retornam ao trabalho e cerca de metade passa a depender de um cuidador.
O impacto econômico acompanha o clínico e recai majoritariamente fora do hospital. Levantamento conduzido pela equipe do Joinvasc, programa público de tratamento do AVC de Joinville (SC), estimou o custo médio das consequências de um AVC em cerca de R$ 134 mil por pessoa/ano, sendo que aproximadamente 70% desse valor corresponde a custos indiretos — suportados por pacientes, famílias e comunidade, e não pelo sistema de saúde.
O gargalo brasileiro não é a tecnologia — é a habilitação e o registro
O contraste apresentado aos diretores foi o principal ponto de inflexão do debate. A trombólise intravenosa tem evidência científica desde 1995 e financiamento no SUS desde a Portaria GM/MS nº 664, de 12 de abril de 2012. A trombectomia mecânica foi normatizada pela Portaria GM/MS nº 1.996, de 24 de novembro de 2023, que definiu códigos, materiais e critérios de habilitação de Centros de AVC para o procedimento. Ainda assim, os registros nacionais no DataSUS mostram que a maioria dos pacientes brasileiros não recebe nenhum dos dois tratamentos. Atualmente o país conta com 130 Centros de Atendimento de Urgência ao AVC habilitados, dos quais apenas 20 estão credenciados para realizar trombectomia mecânica pelo SUS.
Na Paraíba, o levantamento apresentado ao grupo indicou volume expressivo de internações por AVC em 2025, com número de procedimentos de reperfusão registrados muito abaixo do esperado para essa massa de internações — indicador que aponta principalmente para subnotificação e falhas de registro, e não apenas para ausência de assistência.
O ponto interessa diretamente ao diretor administrativo. O registro correto no SIGTAP é também receita: existe diferença de faturamento relevante entre uma internação por AVC com e sem trombólise, e a Portaria GM/MS nº 665, de 12 de abril de 2012, institui incentivo financeiro de custeio de R$ 350,00 por dia por leito das Unidades de Cuidado Agudo e de Cuidado Integral ao paciente com AVC — custeando até três dias de permanência na U-AVC Agudo e até quinze dias na U-AVC Integral. Os critérios de habilitação foram posteriormente atualizados pela Portaria GM/MS nº 800, de 17 de junho de 2015.

“É a rede e é o diálogo”, diz o diretor do Hospital de Trauma
O diretor-geral do Hospital Estadual de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena, Aluízio Lopes, que abriu a unidade para visita técnica na manhã do evento, resumiu em uma palavra o principal ponto de melhoria da rede.
“O diálogo vai fazer a gente melhorar a nossa atenção. A descentralização é importante”, afirmou, ao destacar o volume de entrada do maior hospital de trauma do estado e a necessidade de integração com a regulação e com os municípios. “Que bom que esse encontro aconteceu para plantar essa sementinha aqui. Tenho certeza de que vai dar muitos frutos, não só no Hospital de Trauma, mas em todos os hospitais presentes — porque é a rede e é o diálogo.”
Gestores do interior também tomaram a palavra para relatar a mudança percebida na articulação entre municípios e estado, especialmente nas regiões mais distantes da capital.
AVC é também um problema de gestão hospitalar
Convidado pela SES-PB para conduzir o painel técnico, o neurologista e neurointervencionista Dr. Diógenes Zãn (CRM-RS 41.685), CEO do IMCELER, apresentou aos gestores um diagnóstico com três causas estruturais para a baixa taxa de tratamento no país.
A primeira é de pessoas e processos: na ausência de protocolo institucional, cada profissional conduz o caso à sua maneira, o que gera variabilidade, desperdício e impossibilidade de medir desempenho. Fluxos de regulação operados por e-mail foram apontados como o gargalo mais crítico em uma doença tempo-dependente. A segunda é o tempo: a janela terapêutica da trombólise é de 4h30 na maioria dos casos e o benefício decai a cada hora, sendo as metas do Ministério da Saúde de até 25 minutos para o tempo porta-tomografia e até 60 minutos para o tempo porta-agulha. A terceira é o reconhecimento — o AVC não é uma emergência intuitiva para a população. Pesquisa realizada no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (UFRGS) mostrou que 41% dos pacientes não procuraram ajuda médica na primeira hora após o início dos sintomas.
O que muda quando a cobertura neurológica passa a ser 24 horas
Como referência prática, foi apresentado o caso de um hospital acompanhado pelo IMCELER com perfil semelhante ao das unidades paraibanas — cerca de 200 leitos e referência regional em trauma — que reduziu a mortalidade hospitalar por AVC de 22,4% para 9,2%, patamar abaixo da média nacional. O resultado está associado a quatro movimentos combinados: habilitação federal como centro de AVC, cobertura neurológica 24 horas por telemedicina, organização de unidade de AVC com round multidisciplinar e reorganização da rede com treinamento presencial do SAMU e das UPAs.
O detalhe que mais interessa ao gestor é o modo como o ganho ocorreu: o aumento da taxa de tratamento se deu sem abertura de novos leitos, por ganho de giro e redução de tempo de permanência. Essa cobertura contínua é o que o IMCELER opera por meio do TeleAVC®, serviço de telemedicina em neurologia com suporte 24 horas por dia e canal dedicado para o médico da emergência — modelo que permite a hospitais sem neurologista presencial iniciar trombólise com respaldo especializado, protocolo padronizado e registro de indicadores.
Apoio técnico, certificação internacional e educação comunitária
O programa estadual conta com o apoio da Angels Initiative, iniciativa internacional sem fins lucrativos que oferece gratuitamente consultoria, treinamento e ferramentas de qualificação a hospitais e serviços pré-hospitalares que tratam AVC.
Entre os recursos disponibilizados aos hospitais estão a plataforma internacional RES-Q, usada para registro de indicadores e comparação de desempenho entre serviços, e os programas de certificação reconhecidos pela World Stroke Organization (WSO). Foi apresentado também o Fast Heroes, programa de educação comunitária criado na Universidade da Macedônia e adotado por municípios brasileiros, que ensina crianças do 4º ano a reconhecer os três principais sinais do AVC — boca torta, dificuldade para falar e dificuldade para mover os membros — e a acionar o SAMU 192.
Como estímulo à rede, sugeriu-se a criação de um reconhecimento estadual aos hospitais com os melhores tempos porta-tomografia e porta-agulha, e a busca pela primeira certificação Cidade Angels da Paraíba, concedida a municípios cujo hospital, serviço pré-hospitalar e escolas atuam de forma integrada no enfrentamento do AVC.

Próximos passos da rede paraibana
O encontro encerrou com o compromisso da SES-PB de consolidar o novo desenho assistencial em todas as macrorregiões, com definição formal de responsabilidades por unidade, padronização de protocolos institucionais, qualificação do registro no DataSUS e na plataforma RES-Q e integração efetiva entre atenção básica, SAMU, UPAs, hospitais de referência e reabilitação pós-AVC.
Foram convidadas as seguintes unidades: Hospital Estadual de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena, Hospital Metropolitano Dom José Maria Pires (Santa Rita), Hospital Geral de Mamanguape, Hospital de Emergência e Trauma Dom Luiz Gonzaga Fernandes (Campina Grande), Hospital Estadual de Taperoá e os hospitais regionais de Guarabira, Itabaiana, Queimadas, Monteiro, Picuí, Patos, Catolé do Rocha, Cajazeiras, Sousa, Piancó e Pombal.
Para os diretores presentes, a mensagem central foi menos sobre tecnologia e mais sobre organização. O AVC é uma das poucas condições em que a diferença entre um desfecho funcional e uma incapacidade permanente pode ser decidida por decisões de gestão — quem aciona quem, em quanto tempo, com qual protocolo e sob qual registro.
O IMCELER participou do encontro a convite da Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba.
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Perguntas frequentes sobre a linha de cuidado do AVC
O que é a linha de cuidado do AVC?
É o conjunto organizado de etapas que o paciente percorre, da prevenção na atenção básica ao reconhecimento dos sintomas, transporte pelo SAMU, atendimento em centro de AVC, tratamento de fase aguda, internação em unidade de AVC, investigação etiológica, reabilitação e prevenção secundária. Cada etapa tem responsável, protocolo e indicador definidos.
O que significa descentralizar a linha de cuidado do AVC?
Significa habilitar e qualificar unidades em todas as regiões do estado, em vez de concentrar o atendimento na capital. Como o AVC é tempo-dependente, quanto menor a distância entre o paciente e um hospital com tomógrafo, protocolo e trombolítico, maior a chance de tratamento eficaz.
Qual é o tempo máximo para tratar um AVC isquêmico?
A janela clássica da trombólise intravenosa é de 4h30 do início dos sintomas, e a trombectomia mecânica pode ser indicada em janelas mais amplas em casos selecionados. O benefício, porém, decai a cada minuto: tratar em 30 minutos é melhor do que em 60, que é melhor do que em 120.
O diagnóstico de AVC depende da tomografia?
O diagnóstico de AVC é clínico — déficit neurológico focal de início súbito. A tomografia é indispensável para diferenciar AVC isquêmico de hemorrágico, porque os tratamentos são opostos. Uma tomografia normal, nas primeiras horas, é compatível com AVC isquêmico.
O que é tempo porta-agulha?
É o intervalo entre a chegada do paciente ao hospital e o início da infusão do trombolítico. A meta do Ministério da Saúde é de até 60 minutos; centros de excelência operam entre 20 e 30 minutos.
Como um hospital se habilita como centro de AVC?
Pelo cumprimento dos requisitos das Portarias GM/MS nº 665/2012 e nº 800/2015, que incluem tomógrafo disponível 24 horas, cobertura neurológica 24/7 presencial ou por telemedicina, leitos de unidade de AVC, protocolo institucional e registro de indicadores. A habilitação dá direito a incentivo por leito/dia e a valores diferenciados na tabela SIGTAP.
Um hospital sem neurologista pode realizar trombólise?
Sim, desde que disponha de cobertura neurológica remota qualificada, protocolo institucional e tomografia disponível. A telemedicina em neurologia é reconhecida pelas normas de habilitação como forma válida de garantir a cobertura 24 horas exigida dos Centros de AVC.
Quais são os sinais de AVC e o que fazer?
Boca torta, dificuldade para falar e dificuldade para mover braço ou perna, de início súbito. Diante de qualquer um desses sinais, ligue imediatamente para o SAMU 192. Não leve o paciente para UPA ou posto de saúde sem tomógrafo.

