I Simpósio Noroeste de AVC na UNIG discute trombólise em Itaperuna (RJ)

26 de outubro de 2026
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O I Simpósio Noroeste de AVC foi realizado no sábado, 24 de outubro de 2026, no campus V da Universidade Iguaçu (UNIG), em Itaperuna (RJ), sob o lema “Decisões que mudam desfechos”. A comissão organizadora, assinada como LANI no material oficial do evento, incluiu na programação uma palestra sobre trombólise intravenosa no AVC isquêmico: quem tratar, até quando e com qual trombolítico.

Primeiro simpósio de AVC do Noroeste Fluminense ocupa o campus da UNIG em Itaperuna

A primeira edição do simpósio ocorreu no campus V da UNIG, na BR-356, km 2, em Itaperuna, município do Noroeste Fluminense que tinha 101.041 habitantes no Censo 2022 do IBGE. A Universidade Iguaçu tem sede em Nova Iguaçu e mantém em Itaperuna um campus fora de sede, inaugurado em 1996 segundo a própria instituição, onde funciona o curso de Medicina.

A palestra sobre trombólise ocupou o intervalo das 9h10 às 9h40 e integrou uma manhã de apresentações. O palestrante, que acompanhou o evento por transmissão, comentou ter visto registros do auditório cheio e parabenizou os organizadores.

Palestrante abriu pelo significado das palavras do título

A palestra foi proferida por videoconferência, com projeção no auditório, por Diógenes Guimarães Zãn, neurologista e neurorradiologista intervencionista, formado em neurologia no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), com atuação em neurovascular, mestre pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e com Formação em Gestão de Processos pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

Ele abriu pela etimologia do tema: “trombo”, do grego, designa coágulo; “lise” é desfazer; “intravenosa” indica a via. Explicou que a trombólise potencializa o sistema fibrinolítico que o próprio organismo usa para impedir que coágulos se propaguem e, em seguida, deslocou o foco do medicamento para as pessoas: o objetivo do tratamento, afirmou, é devolver funcionalidade ao paciente, e não apenas reabrir uma artéria.

Para ilustrar a frequência da doença, citou que o AVC atinge uma em cada quatro pessoas ao longo da vida. Sem enxergar a plateia pela transmissão, pediu que os presentes levantassem a mão se conhecessem alguém que já teve AVC.

I Simpósio Noroeste de AVC na UNIG discute trombólise em Itaperuna (RJ)

Quem tratar: o déficit incapacitante pesa mais do que a nota da escala

A primeira das três decisões à beira do leito foi a seleção do paciente. Segundo o palestrante, a trombólise deve ser considerada diante de déficit neurológico focal, súbito e incapacitante, e a decisão não deve se apoiar apenas no escore da escala NIHSS, que pode não captar sintomas como desequilíbrio e disfagia. A orientação converge com a diretriz de 2026 da American Heart Association/American Stroke Association (AHA/ASA), publicada na revista Stroke em 26 de janeiro, que enfatiza o tratamento rápido de pacientes elegíveis com déficits incapacitantes, independentemente do NIHSS, na janela de 4,5 horas.

Para a abordagem inicial, o palestrante apresentou o mnemônico RUA: Rankin prévio (a funcionalidade do paciente antes do evento), Último horário visto bem (a referência para contar a janela terapêutica, inclusive em quem acorda com sintomas) e uso de Anticoagulante, que a equipe deve investigar também pela receita ou com familiares. Citou ainda glicemia capilar, pressão arterial e tomografia de crânio para afastar sangramento e lesão extensa. O mnemônico é recurso didático e não substitui o protocolo de cada serviço.

Até quando: da janela de três horas ao tecido cerebral salvável

Dr. Diógenes percorreu a evolução da janela terapêutica. O estudo NINDS, publicado em 1995 no New England Journal of Medicine, demonstrou benefício da alteplase em até três horas; o ECASS III, de 2008, ampliou o limite para 4,5 horas. Depois, a pergunta deixou de ser apenas “que horas são?” e passou a ser “o que ainda há para salvar?”: o WAKE-UP (2018) orientou o tratamento por ressonância em AVC de início desconhecido, e o EXTEND (2019) usou imagem de perfusão para tratar com alteplase entre 4,5 e 9 horas.

O EXTEND, porém, foi interrompido antes de completar o recrutamento planejado (225 dos 310 pacientes), e a hemorragia cerebral sintomática foi mais frequente no grupo tratado (6,2% contra 0,9% no placebo). Para além dessa janela, o palestrante citou o TRACE-III, publicado em 2024: ensaio conduzido na China com 516 pacientes com oclusão de grande vaso e sem acesso à trombectomia, tratados com tenecteplase entre 4,5 e 24 horas. No grupo tenecteplase, 33,0% estavam sem incapacidade em 90 dias, contra 24,2% com tratamento clínico, com hemorragia intracraniana sintomática de 3,0% e 0,8%, respectivamente. Segundo ele, estudos posteriores tiveram resultados neutros ou dificuldade de demonstrar benefício, o que indica que a evidência para janelas prolongadas ainda está em construção.

Na prática, resumiu, se a trombectomia mecânica está acessível em tempo hábil, a via a considerar é a transferência do paciente; sem esse acesso, a trombólise pode ser avaliada com critérios de neuroimagem avançada, e não apenas com tomografia convencional. Ele também destacou que o benefício depende do tempo: segundo os números apresentados, o número necessário para tratar é de 4 quando o tratamento começa em até 60 minutos e de 14 aos 270 minutos.

Com qual trombolítico: tenecteplase e alteplase no centro do debate

A terceira decisão foi a escolha do medicamento. Ambos ativam o plasminogênio, que vira plasmina, a “tesoura” que corta a rede de fibrina do coágulo, na metáfora do palestrante. A tenecteplase tem maior especificidade pela fibrina, maior resistência ao inibidor PAI-1 e meia-vida mais longa, o que permite administração em dose única (bolus). A alteplase exige reconstituição de mais de um frasco, bolus inicial e infusão de uma hora sob vigilância da bomba de infusão. Para o palestrante, a simplificação libera a equipe para cuidar do paciente, facilita a transferência para centros de maior complexidade e organiza a farmácia e a maleta de AVC. Os critérios de seleção e de exclusão, ressaltou, são os mesmos para os dois medicamentos.

A diretriz AHA/ASA 2026 admite tenecteplase ou alteplase na janela de 4,5 horas. Segundo o palestrante, a European Stroke Organisation já recomendava a tenecteplase em 2023, e a cardiologia a utiliza no infarto há mais de duas décadas. No Brasil, a tenecteplase recebeu aval da Anvisa para o AVC isquêmico agudo em dezembro de 2025. O palestrante disse recomendar a tenecteplase pela praticidade e pela especificidade, mantendo a alteplase como opção disponível, e alertou para usar a dose consagrada pelos estudos e pelas diretrizes, e não a testada em ensaios sem benefício. A posologia deve seguir a bula e o protocolo institucional.

O gargalo é o acesso: apenas 2,4% dos casos recebem trombólise, segundo o palestrante

Ao encerrar, Dr. Diógenes Zãn afirmou que, segundo o dado que apresentou, apenas 2,4% dos casos de AVC no Brasil acessam o tratamento trombolítico, apesar de medicamentos aprovados pela Anvisa e de procedimentos previstos em portarias do Ministério da Saúde. Associou o baixo acesso à incapacidade persistente, a reinternações e a custos elevados, e defendeu que protocolo não pode ser engavetado: precisa estar na mente das equipes. Fechou com o lema do simpósio: são as decisões tomadas à beira do leito que mudam desfechos.

Participação do IMCELER e expectativa para a próxima edição

Diógenes Guimarães Zãn é CEO do IMCELER, instituto multiprofissional brasileiro de telemedicina de alta complexidade, gestão de linhas de cuidado e educação continuada, fundado em agosto de 2024, que apoia hospitais de diferentes regiões do país na organização do cuidado ao AVC; o TeleAVC, serviço de telemedicina em neurologia do IMCELER, funciona por acionamento telefônico direto, em numeração exclusiva designada pela Anatel, em teleinterconsulta médico-médico 24 horas.

Ao agradecer o convite da organização, manifestou a intenção de participar presencialmente do II Simpósio Noroeste de AVC, previsto, segundo ele, para 2027.

Formação regional diante de uma doença tempo-dependente

A realização de um simpósio de AVC por uma liga acadêmica no interior fluminense aproxima a formação médica regional de uma doença tempo-dependente, em que a conduta dos primeiros minutos depende do conhecimento de toda a equipe, e não só do especialista.

Para saber mais sobre a implementação de linhas de cuidado com suporte especializado, acesse imceler.com.br.

Fontes e referências:
Prabhakaran S et al. 2026 Guideline for the Early Management of Patients With Acute Ischemic Stroke (AHA/ASA). Stroke, 26/01/2026. doi:10.1161/STR.0000000000000513
NINDS rt-PA Stroke Study Group. N Engl J Med, 1995. PubMed 7477192
Hacke W et al. ECASS III. N Engl J Med, 2008. PubMed 18815396
Thomalla G et al. WAKE-UP. N Engl J Med, 2018. PubMed 29766770
Ma H et al. EXTEND. N Engl J Med, 2019. doi:10.1056/NEJMoa1813046 (PubMed 31067369)
Xiong Y et al. TRACE-III. N Engl J Med, 2024. doi:10.1056/NEJMoa2402980 (PubMed 38884324)
IBGE, Cidades e Estados, Itaperuna (Censo 2022): ibge.gov.br/cidades-e-estados/rj/itaperuna.html
UNIG, Campus Itaperuna: institucional.unig.br/campus-itaperuna

FAQ

Quem deve receber trombólise no AVC isquêmico?

Em linhas gerais, a diretriz AHA/ASA 2026 orienta tratar rapidamente adultos elegíveis com déficit incapacitante na janela de 4,5 horas, independentemente do escore NIHSS. A decisão é individual e depende dos critérios de inclusão e exclusão do protocolo de cada serviço.

Até quantas horas é possível fazer trombólise?

A janela convencional é de até 4,5 horas a partir do último horário visto bem. Em casos selecionados, estudos com imagem avançada (como o EXTEND, até 9 horas) e o TRACE-III (tenecteplase, 4,5 a 24 horas, oclusão de grande vaso sem trombectomia, ensaio chinês) ampliaram o debate, com ressalvas sobre hemorragia e evidência ainda em construção.

O que significa “último horário visto bem”?

É o último momento em que o paciente foi visto sem sintomas. Serve de referência para contar a janela terapêutica, sobretudo em quem acorda com sintomas ou é encontrado com déficit sem testemunhas.

Tenecteplase substitui a alteplase?

A diretriz AHA/ASA 2026 admite as duas opções na janela de 4,5 horas, e a Anvisa aprovou a tenecteplase para o AVC isquêmico agudo em dezembro de 2025. A escolha depende do protocolo institucional, da disponibilidade e da bula.

Onde fica o campus V da UNIG, em Itaperuna?

Na BR-356, km 2, bairro Cidade Nova, em Itaperuna (RJ). O campus abriga o curso de Medicina da Universidade Iguaçu no Noroeste Fluminense.


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Diretor técnico:
Dr. Diógenes Guimarães Zãn
CRM-RS 41.685
RQE RS 34.942 – neurologista
RQE-RS NRI 39.490 – neurorradiologista


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Última atualização: 23/10/2026 –
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