Simers leva a telemedicina especializada ao debate no programa Corações & Mentes

Sindicato Médico do Rio Grande do Sul discute, em seu programa de saúde mental e bem-estar, como o atendimento a distância pode democratizar o acesso a especialistas no interior.
O Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) gravou, no dia 8 de julho, mais uma edição do programa Corações & Mentes, dedicado a discussões qualificadas sobre saúde mental e bem-estar. Conduzido pelo psiquiatra Ricardo Nogueira, coordenador do Núcleo de Psiquiatria da entidade, o episódio colocou em pauta um dos temas mais sensíveis da gestão hospitalar contemporânea: como levar cuidado especializado a quem mora longe dos grandes centros.
Para aprofundar o assunto, o programa recebeu dois convidados que atuam na linha de frente dessa transformação: a psiquiatra Larissa Frota, com residência pelo Hospital Mãe de Deus e coordenadora de telemedicina em psiquiatria, e o neurologista e neurorradiologista intervencionista Diógenes Guimarães Zãn, especialista em doenças cerebrovasculares. Ambos integram o IMCELER, instituto que opera serviços de telemedicina em neurologia e em psiquiatria em dezenas de hospitais em todo país.
O problema que o Simers colocou em debate: acesso e tempo
Ao abrir o programa, Nogueira sintetizou o dilema central: o Brasil forma muitos médicos, mas concentra especialistas nos grandes centros. Quem se forma e vai atuar no interior frequentemente enfrenta, sozinho, os casos mais graves que chegam às emergências — entre eles o AVC e as emergências psiquiátricas.
O apresentador reforçou uma dimensão que todo gestor conhece: no AVC, cada minuto conta. Quanto mais rápido o atendimento adequado, maior a chance de o paciente preservar suas funções. E, na saúde mental, o volume de emergências vem crescendo de forma expressiva, sobretudo no Rio Grande do Sul do pós-enchente.
Telessaúde, telemedicina e teleinterconsulta: as distinções que importam
Durante o programa, Diógenes fez questão de organizar os conceitos. A telessaúde é a comunicação entre profissionais de saúde para decisões clínicas ou de gestão. Dentro dela, a telemedicina, que envolve a presença do profissional médico, se divide entre a teleconsulta (médico e paciente por videoconferência, permitida no Brasil pela Resolução CFM nº 2.314/2022) e a teleinterconsulta (médico a médico), modalidade que existe no país desde 2002.
Segundo explicou no programa, o serviço de telemedicina em neurologia opera como uma teleinterconsulta: o médico da ponta faz o primeiro atendimento e a tomografia, aciona o especialista por um canal dedicado, e a decisão é registrada em prontuário eletrônico. Ele destacou que a Lei Federal nº 14.510/2022 define a decisão como compartilhada — o médico local e o especialista a distância são corresponsáveis — e dispensa a inscrição secundária em outros estados no atendimento por telemedicina.
Da neurologia à psiquiatria: um modelo que se replica
Larissa explicou que a lógica da telemedicina em psiquiatria segue o mesmo desenho validado na neurologia. O paciente é atendido pelo médico da ponta, previamente treinado pela equipe, que colhe uma anamnese detalhada e aciona o especialista para discutir a conduta.
Ela detalhou que os pacientes que mais se beneficiam são os que chegam graves às emergências: depressão com ideação suicida, surto psicótico e intoxicações exógenas — estas, com predomínio de mulheres jovens. Em uma das operações citadas, o treinamento foi direcionado justamente ao manejo dessas intoxicações. A psiquiatra ressaltou o papel do Centro de Informações Toxicológicas (CIT), acionado antes mesmo da discussão do caso, e prestou homenagem no programa a Alberto Nicolella, um dos criadores do serviço no estado.
Educação continuada como pré-requisito, não como acessório
Um ponto reforçado pelos convidados, e caro à realidade dos hospitais que o Simers representa, é que o suporte a distância não substitui a capacitação local. Diógenes afirmou no programa que a equipe só entra a partir do treinamento de todo o corpo clínico da emergência, repetido periodicamente diante da rotatividade dos plantonistas. Larissa reforçou que os treinamentos são feitos presencialmente e também online, conforme a necessidade de cada hospital.
O recado do Simers: pedir ajuda é uma forma de qualificar a assistência
No encerramento, Nogueira avaliou o episódio como um espaço para desfazer resistências: diante de muitos médicos e poucos especialistas, articular apoio a distância é hoje um caminho para garantir bom atendimento ao paciente.
Larissa deixou um apelo à comunidade médica: não deixar de procurar ajuda nem de falar sobre saúde mental, lembrando que o maior beneficiário do acesso é sempre o paciente. Diógenes fechou com a ideia que atravessou todo o programa: é inaceitável que alguém fique sem o melhor tratamento por causa do CEP onde mora.
O programa Corações e Mentes está disponível no canal do Simers no YouTube. O episódio gravado no dia 8 de julho irá ao ar na próxima semana. Gestores e profissionais de saúde interessados em conhecer os modelos de telemedicina em neurologia e psiquiatria podem acessar imceler.com.br.

