Hospital Nossa Senhora das Graças estrutura programa de cuidados paliativos com metodologia do IMCELER

28 de agosto de 2026
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Antes da aula inaugural, o hospital já tinha a jornada do paciente mapeada, o time local formado e o protocolo de triagem paliativa definido. O método, em oito etapas encadeadas, foi desenhado para funcionar em hospitais sem serviço próprio de cuidados paliativos.

O Hospital Nossa Senhora das Graças (HNSG), em Canoas (RS), estrutura seu Programa de Cuidados Paliativos a partir da metodologia proprietária de implantação de linhas de cuidado do IMCELER, instituto multiprofissional de telemedicina de alta complexidade, gestão de linhas de cuidado e educação continuada. Em 27 de agosto de 2026, o projeto ganhou sua etapa mais visível: uma aula inaugural de sensibilização dirigida a toda a equipe assistencial da instituição.

A aula inaugural não foi o começo do projeto

O encontro de agosto marcou a abertura pública da linha de cuidado, não o seu ponto de partida. Quando a equipe do HNSG se reuniu no auditório, três etapas já estavam concluídas — e são elas que explicam por que a mobilização encontrou terreno preparado.

A primeira foi o tracing da jornada do paciente: o mapeamento do fluxo assistencial como ele de fato ocorre na instituição, desde a identificação do paciente com doença grave e progressiva até a condução do caso pelas diferentes equipes e turnos. Não se trata de descrever o processo desejado, mas de documentar o processo real, com seus pontos de decisão, lacunas de registro e variações entre plantões. É desse desenho — e não de um modelo genérico — que nascem as demais definições.

A segunda foi a composição do time local de cuidados paliativos, formado por profissionais do próprio hospital. A terceira, a elaboração do protocolo assistencial, com modelo de triagem paliativa estruturada. Só então o projeto foi apresentado ao conjunto da instituição.

A ordem é deliberada. Sensibilizar uma equipe sem ter respostas concretas para “quem identifica”, “com que critério” e “a quem se aciona” produz adesão emocional que se dissolve na primeira semana. Sensibilizar depois de ter o fluxo desenhado transforma a aula em ativação de um processo que já existe.

Uma metodologia proprietária organizada em três movimentos

O método exclusivo do IMCELER percorre oito etapas encadeadas, agrupadas em três movimentos de natureza distinta.

O primeiro é de diagnóstico e desenho: tracing dos processos assistenciais, composição do time local e construção do protocolo com critérios explícitos de triagem. É a fase em que o hospital deixa de ter cuidados paliativos como prática dispersa e passa a ter um objeto de gestão definido.

O segundo é de mobilização e capacitação, e opera em dois níveis. A sensibilização institucional alcança todos os integrantes do hospital e enfrenta os tabus que cercam o tema. Em seguida, grupos focais aprofundam o trabalho com médicos e com as equipes multiprofissionais, conduzidos pelo time do IMCELER — porque comunicação de más notícias, condução de conferência familiar e manejo de sintomas refratários são competências treináveis que não se adquirem em palestra única. Sobre essa base, instala-se a mentoria continuada do time local, com objetivo declarado de autonomia progressiva.

O terceiro é de governança: coleta sistemática de indicadores e de não conformidades assistenciais, e discussão desses dados nos alinhamentos de gestão do hospital. É o movimento que fecha o ciclo e impede que o programa regrida a projeto de boas intenções.

A triagem paliativa estruturada substitui a percepção individual

O elemento clínico central do protocolo é a triagem por instrumentos validados. O modelo adotado combina o SPICT-BR — versão brasileira do Supportive and Palliative Care Indicators Tool, criado em 2010 pelo Primary Palliative Care Research Group da Universidade de Edimburgo, com validação para o português brasileiro — e a Palliative Performance Scale (PPS), escala de avaliação funcional amplamente utilizada em cuidados paliativos.

A escolha tem consequência prática direta. O SPICT-BR combina indicadores clínicos gerais, como internações repetidas e declínio funcional, com indicadores específicos por doença, e foi desenhado para ser aplicado por equipes não especializadas. Isso significa que a identificação do paciente com necessidade paliativa deixa de depender da experiência individual de quem está de plantão e passa a seguir critério institucional reprodutível.

É também o que operacionaliza o princípio que a sensibilização busca fixar: cuidados paliativos são indicados desde o diagnóstico de uma doença grave e progressiva, em paralelo ao tratamento modificador de doença, e não apenas quando as possibilidades terapêuticas se esgotam. Um instrumento de triagem aplicado na rotina antecipa a identificação; a ausência dele empurra a discussão para o momento de crise.

Hospital Nossa Senhora das Graças estrutura programa de cuidados paliativos com metodologia do IMCELER
Hospital Nossa Senhora das Graças estrutura programa de cuidados paliativos com metodologia do IMCELER

Por que o método alcança hospitais menores e distantes dos grandes centros

A arquitetura do método tem consequência econômica. Ele não pressupõe criação de leitos dedicados, não exige unidade física própria e não parte da contratação de paliativista em regime integral. O time de cuidados paliativos é composto por profissionais que o hospital já mantém, e a especialidade entra por mentoria e capacitação continuada, no mesmo desenho de matriciamento a distância que o IMCELER opera em suas demais linhas de cuidado — entre elas o TeleAVC®, em neurologia.

O investimento se desloca de estrutura para processo e formação. Para um hospital filantrópico de médio porte no interior, isso muda o cálculo: a pergunta deixa de ser “temos condição de montar um serviço de cuidados paliativos?” e passa a ser “temos condição de organizar o cuidado que já prestamos?”.

O gargalo brasileiro deixou de ser a ausência de programas

O contexto nacional explica por que o método pesa tanto quanto a decisão de implantar. Segundo a nova edição do Atlas Nacional de Cuidados Paliativos, organizado pela Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP) e apresentado em março de 2026 durante o XII Congresso Latino-Americano e o XI Congresso Brasileiro de Cuidados Paliativos, o número de programas no país passou de 234, em 2022, para 423, em 2025 — crescimento de 88,8%. O mesmo levantamento mostra que 65% deles não atingem os critérios mínimos para serem considerados especializados.

A desigualdade regional agrava o quadro: o Sudeste concentra 40% dos programas e a região Norte, apenas 3%. No Sul, a razão é de 0,22 serviço por 100 mil habitantes, distante da recomendação da Organização Mundial da Saúde e da Worldwide Hospice Palliative Care Alliance, de ao menos dois por 100 mil. O obstáculo, para o hospital regional, raramente é vontade institucional — é a escassez de especialista disponível e a suposição de que implantar exige criar um serviço inteiro do zero.

A coordenação técnica reúne ex-presidente da ANCP e editor principal do Tratado de Cuidados Paliativos

A aula inaugural no HNSG foi ministrada pelo médico Rodrigo Kappel Castilho, coordenador do projeto de cuidados paliativos do IMCELER, com apoio da enfermeira Sâmia Faria, coordenadora de Novos Projetos do instituto.

Castilho é médico intensivista e paliativista e ex-presidente da ANCP. À frente da entidade, formalizou junto ao Conselho Federal de Medicina o pleito para que a medicina paliativa passe de área de atuação a especialidade médica e acompanhou a construção da Política Nacional de Cuidados Paliativos, instituída pela Portaria GM/MS nº 3.681, de 7 de maio de 2024. É também editor principal do Tratado de Cuidados Paliativos da ANCP, lançado em março de 2026 em parceria com a Editora Atheneu — obra com oito editores, 254 colaboradores e 155 capítulos — e participou da construção do Atlas Nacional de Cuidados Paliativos.

A direção do HNSG assumiu o projeto como decisão institucional

A implantação tem respaldo direto da alta gestão. O diretor-geral Marcos Vinícius Machado, o diretor técnico Aristides Chicarolli Neto e a diretora assistencial Luciana Andretta patrocinaram o projeto desde a fase de tracing e viabilizaram a mobilização de toda a equipe assistencial para a aula inaugural.

O gesto tem peso institucional. O HNSG é a instituição hospitalar mais antiga de Canoas e referência para mais de 150 municípios do Rio Grande do Sul, e vem operando sob forte demanda assistencial desde as enchentes de maio de 2024. Abrir uma nova linha de cuidado nesse cenário é escolha de priorização — e a decisão de mapear processos antes de anunciar o projeto indica que a instituição tratou a iniciativa como matéria de gestão, não de comunicação.

Da triagem à governança: indicadores e não conformidades nos alinhamentos de gestão

As próximas etapas concentram-se nos grupos focais com médicos e equipes multiprofissionais e na mentoria do time local, até que o hospital conduza os casos com autonomia. Em paralelo, entra em operação a camada de governança: coleta de indicadores de processo e de desfecho e registro de não conformidades assistenciais, levados à discussão nos alinhamentos de gestão da instituição.

É esse último ponto que distingue linha de cuidado madura de programa recém-implantado. Indicadores que ficam em relatório não corrigem processo; indicadores discutidos em fórum de gestão, com responsáveis e prazos, transformam desvio assistencial em ação. Para a direção técnica, é também o que dá lastro documental às decisões de proporcionalidade terapêutica — historicamente a área de maior exposição jurídica em cuidados de fim de vida.

Um método construído para ser transferido

O objetivo declarado da metodologia não é instalar dependência de suporte externo, mas levar o time local à autonomia. A mentoria existe para ser progressivamente desnecessária, e a governança por indicadores existe para que o hospital consiga enxergar sozinho a maturidade do próprio programa.

O envelhecimento populacional e o aumento da prevalência de condições crônicas ampliam de forma consistente a demanda por cuidado paliativo hospitalar. Como mostra o Atlas da ANCP, a diferença entre ter um programa e ter um programa que qualifica está no método de implantação — e o desafio brasileiro está menos nos grandes centros do que nos hospitais regionais que ainda tratam cuidados paliativos como projeto inalcançável.

Conheça a metodologia de implantação de linhas de cuidado do IMCELER e descubra como ela pode se integrar à realidade do seu hospital: imceler.com.br


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