Hospital Nossa Senhora das Graças capacita equipes em cuidados paliativos

3 de setembro de 2026
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O Hospital Nossa Senhora das Graças, em Canoas (RS), iniciou em setembro de 2026 a etapa de capacitação por grupos focais de seu Projeto de Cuidados Paliativos. A atividade reuniu profissionais das diferentes categorias assistenciais da instituição em encontros de discussão estruturada e dá sequência à aula inaugural de sensibilização realizada em 27 de agosto de 2026.

Os grupos focais foram conduzidos pelo médico Rodrigo Castilho, coordenador do projeto de cuidados paliativos do IMCELER, e pela enfermeira Sâmia Faria, coordenadora de Novos Projetos do instituto. O objetivo declarado da etapa é preparar as equipes para oferecer o melhor atendimento na melhor oportunidade para o paciente — o que a área descreve como cuidado integral.

Grupos focais deslocam a formação da aula expositiva para a discussão do caso real

A escolha do formato tem razão prática. Em uma aula expositiva, o profissional recebe o conceito; em um grupo focal, ele o confronta com a rotina que conhece. A discussão parte de situações reais da instituição — o paciente oncológico em progressão, a internação recorrente por insuficiência cardíaca avançada, a família que pede tudo enquanto o paciente pede outra coisa.

Esse desenho também expõe o que uma aula não alcança: as divergências silenciosas entre categorias profissionais. A enfermagem costuma identificar o paciente com necessidade paliativa antes da equipe médica, porque acompanha o dia a dia da internação. A fisioterapia e a fonoaudiologia observam perdas funcionais que antecedem o registro em prontuário. O grupo focal traz essas percepções à mesa e transforma o que era leitura individual em critério compartilhado.

Há um efeito adicional relevante para a implantação: o grupo focal é, ao mesmo tempo, atividade formativa e instrumento de diagnóstico. Ao ouvir as equipes, a coordenação do projeto identifica onde estão as maiores dúvidas, quais barreiras culturais persistem e que pontos do fluxo assistencial precisam de mais clareza antes da entrada em operação dos protocolos.

O melhor atendimento, na melhor oportunidade: o que significa cuidado integral

A formulação que orienta a capacitação — o melhor atendimento, na melhor oportunidade — resume o principal deslocamento conceitual que a implantação exige. Cuidados paliativos podem ser indicados desde o diagnóstico de uma doença grave e progressiva, em paralelo ao tratamento modificador de doença, e não apenas quando as possibilidades terapêuticas se esgotam.

A Organização Mundial da Saúde define cuidados paliativos como a abordagem que melhora a qualidade de vida de pacientes e famílias diante de doenças que ameaçam a continuidade da vida, por meio da prevenção e do alívio do sofrimento, com identificação precoce e tratamento da dor e de outros sintomas físicos, psicossociais e espirituais. No Brasil, a Resolução nº 41/2018 da Comissão Intergestores Tripartite estabelece diretrizes para a organização dos cuidados paliativos no SUS e prevê a oferta integrada ao cuidado já em curso, em todos os pontos da rede de atenção.

A palavra oportunidade carrega o ponto crítico. Identificação tardia é a falha mais frequente e mais custosa em cuidados paliativos hospitalares: quando a avaliação especializada chega apenas nas últimas horas de vida, perde-se a janela em que ela mais contribui — controle de sintomas, definição compartilhada de objetivos de cuidado, preparo da família e decisões de proporcionalidade terapêutica tomadas com tempo, e não sob pressão.

A educação é a quarta das seis etapas da implantação

O percurso de implantação conduzido pelo IMCELER organiza a linha de cuidado em seis etapas encadeadas: tracing, formação do time, definição de protocolo e fluxo, educação continuada, indicadores e mentoria. Os grupos focais ocupam a quarta posição dessa sequência, e a posição não é acidental.

A educação vem depois do mapeamento da trajetória do paciente e da definição de protocolos porque a formação precisa ter objeto concreto. Capacitar equipes sobre um fluxo que ainda não existe produz conhecimento sem aplicação. Capacitar sobre o fluxo desenhado para aquele hospital, com aqueles setores e aquelas equipes, produz mudança de prática — e vem antes das etapas de indicadores e mentoria, que dependem de uma equipe já apta a operar o que será medido e acompanhado.

Para a gestão hospitalar, formar a equipe é reduzir variabilidade

Para a direção técnica, o argumento da capacitação é de previsibilidade. Sem repertório comum, decisões sobre proporcionalidade terapêutica, comunicação de prognóstico e definição de objetivos de cuidado são tomadas caso a caso, por profissionais diferentes, com critérios não explicitados e registro heterogêneo em prontuário.

Essa dispersão tem custo em três frentes simultâneas: condutas divergentes para pacientes clinicamente equivalentes, dificuldade de planejamento de recursos — sobretudo de leitos críticos — e ausência de documentação padronizada das decisões compartilhadas com paciente e família, o que fragiliza a instituição do ponto de vista da segurança jurídica.

Formação continuada é o que sustenta a correção dessa dispersão ao longo do tempo. Competências centrais em cuidados paliativos — comunicação de más notícias, condução de conferência familiar, avaliação e manejo de dor e de sintomas refratários, identificação precoce de pacientes elegíveis — são treináveis e se deterioram sem prática deliberada.

Próximos passos: protocolos em operação, indicadores e mentoria

Concluída a etapa de grupos focais, a implantação avança para a operação dos protocolos com acompanhamento por indicadores e para o ciclo de mentoria das equipes locais. As medidas previstas incluem o tempo entre a identificação da necessidade e o primeiro atendimento especializado, a proporção de pacientes elegíveis efetivamente avaliados, a documentação de objetivos de cuidado em prontuário e o controle de sintomas ao longo da internação.

O desenho da parceria mantém o protagonismo na equipe do hospital. O objetivo da implantação não é criar dependência de suporte externo, mas capacitar os profissionais do Hospital Nossa Senhora das Graças a identificar, discutir e conduzir esses casos com repertório comum, com o IMCELER atuando como parceiro técnico na estruturação, na formação permanente e no acompanhamento por indicadores.

Um método que se repete

Ao levar a capacitação para o formato de grupos focais, o Hospital Nossa Senhora das Graças fez uma escolha sobre como quer que a mudança aconteça: pela discussão entre as equipes que executam o cuidado, e não pela transmissão vertical de conteúdo. É uma decisão que custa mais tempo na implantação e tende a devolver esse tempo na adesão.

Para hospitais de referência regional, a demanda por cuidado paliativo hospitalar cresce de forma consistente com o envelhecimento populacional e o aumento da prevalência de condições crônicas. Responder a ela com organização, critério e registro adequado é, cada vez mais, um atributo de qualidade institucional — reconhecido por pacientes, famílias, corpo clínico e fontes pagadoras.

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