Hospital Nossa Senhora das Graças capacita 95 profissionais na linha de cuidado do AVC

O Hospital Nossa Senhora das Graças, em Canoas (RS), capacitou 95 profissionais na linha de cuidado do acidente vascular cerebral (AVC) em treinamento conduzido pelo IMCELER, em 28 de agosto de 2026. Participaram equipes assistenciais do próprio hospital, do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) do município, em atividade realizada em dois turnos — manhã e tarde — para alcançar as diferentes escalas dos serviços envolvidos.
A capacitação foi conduzida pelo enfermeiro Marcelo Klu, do IMCELER, instituto multiprofissional de telemedicina de alta complexidade, gestão de linhas de cuidado e educação continuada. As turmas tiveram composição multiprofissional, reunindo médicos emergencistas, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas e integrantes das equipes de atendimento pré-hospitalar.
A linha de cuidado do AVC começa antes da porta do hospital
O desenho da capacitação responde a uma característica do AVC que costuma ser subestimada no planejamento assistencial: boa parte do tempo que determina o desfecho do paciente é consumida antes de sua chegada ao hospital com estrutura para tratamento. O reconhecimento do déficit neurológico súbito pela equipe do SAMU, a decisão de transporte para a unidade adequada e o aviso prévio ao hospital de destino são etapas que antecedem qualquer protocolo intra-hospitalar — e que definem, na prática, se a equipe da emergência estará ou não preparada quando a maca cruzar a porta.
O mesmo vale para as UPAs. Como portas de entrada de urgência da rede municipal, elas recebem pacientes com sintomas neurológicos agudos que nem sempre chegam com queixa explícita de AVC. A capacidade de reconhecer o quadro na classificação de risco e de acionar o fluxo de transferência sem perda de tempo é o que evita que o paciente percorra a rede antes de chegar ao serviço capaz de tratá-lo.
Reunir hospital, SAMU e UPAs na mesma sala é, portanto, uma decisão de método. Quando os três elos compartilham os mesmos critérios de reconhecimento, a mesma nomenclatura e a mesma sequência de acionamento, a rede deixa de operar como uma sucessão de serviços independentes e passa a funcionar como uma linha de cuidado única, com responsabilidades explícitas em cada ponto.
Dois turnos: capacitar serviço 24 horas exige alcançar todas as escalas
A opção por realizar a capacitação em dois horários no mesmo dia não é detalhe logístico. Serviços de urgência funcionam em regime ininterrupto, com equipes distribuídas em plantões que raramente se sobrepõem. Treinamentos realizados em turno único, na prática, capacitam uma fração da força de trabalho e deixam intacta a variabilidade entre plantões — justamente o problema que a padronização pretende resolver.
Ao dividir a atividade entre manhã e tarde, o Hospital Nossa Senhora das Graças alcançou 95 profissionais em um único dia. Em formato de turno único, boa parte deles ficaria de fora — não por desinteresse, mas por escala. É uma escolha que reconhece o que a gestão hospitalar sabe por experiência: protocolo que só funciona no turno da manhã não é protocolo, é exceção.

A enfermagem ocupa a primeira posição do fluxo do AVC
Que a capacitação tenha sido conduzida por um enfermeiro tem significado próprio. Em quase todos os fluxos de AVC agudo, o primeiro profissional a ter contato com o paciente é da enfermagem — na regulação, na ambulância, na recepção da emergência ou na classificação de risco. É nesse contato inicial que o relógio do protocolo começa a correr.
A literatura e os programas internacionais de qualidade em AVC são consistentes nesse ponto: os ganhos mais rápidos de tempo em serviços que estruturam a linha de cuidado costumam vir de mudanças no processo de enfermagem — triagem com escala padronizada, acionamento imediato da equipe, coleta antecipada de dados essenciais, encaminhamento direto à tomografia e preparo do paciente enquanto a avaliação médica ocorre.
Distribuir esse conhecimento entre enfermagem hospitalar, enfermagem das UPAs e equipes do SAMU produz um efeito que a capacitação médica isolada não alcança: reduz o tempo perdido nas transições entre serviços, que é onde a maior parte dos atrasos evitáveis se acumula.
A linha de cuidado do AVC não termina na decisão sobre trombólise
A composição multiprofissional da capacitação — com fisioterapeutas ao lado das equipes médica e de enfermagem — desloca a discussão para além da janela terapêutica. A decisão sobre trombólise é o ponto mais visível do protocolo, mas não é o único que determina o desfecho funcional do paciente.
Nas horas e nos dias seguintes ao evento agudo, o resultado depende de um conjunto de cuidados que as diretrizes assistenciais tratam como parte integrante da linha: posicionamento adequado, prevenção de complicações respiratórias e tromboembólicas, avaliação da capacidade de deglutição antes da primeira ingesta oral e início da reabilitação ainda durante a internação. São medidas conduzidas majoritariamente por profissionais não médicos.
Para a gestão hospitalar, a consequência é direta. Uma linha de cuidado do AVC bem estruturada precisa capacitar simultaneamente quem reconhece o quadro, quem trata na fase aguda e quem conduz a recuperação funcional. Treinar apenas a porta de entrada melhora os indicadores de tempo e deixa intacta a segunda metade do percurso — justamente a que o paciente e a família percebem como resultado.
Tempo é o principal determinante do desfecho no AVC isquêmico
No AVC isquêmico, a chance de recuperação funcional diminui a cada intervalo perdido entre o início dos sintomas e o início do tratamento. Por isso os protocolos assistenciais organizam a resposta em torno de indicadores de tempo — do acolhimento na porta de entrada à realização da tomografia e à decisão sobre trombólise.
A dimensão do problema é conhecida. Segundo a Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares (SBAVC), o Brasil registrou 89.490 óbitos por AVC em 2025, com base em dados de atestados de óbito. A entidade estima ainda entre 232 mil e 344 mil novos casos por ano no país. São números que ajudam a explicar por que a organização de linhas de cuidado para doenças tempo-dependentes tem ocupado espaço crescente na agenda de gestores hospitalares e de secretarias municipais de saúde.
Da capacitação aos indicadores: o ciclo que sustenta a melhoria
No modelo de atuação do IMCELER, a educação continuada é um dos três pilares da parceria com hospitais, ao lado da assistência especializada e da gestão baseada em valor (VBHC). Os três operam de forma articulada: a capacitação alinha condutas, a assistência especializada oferece retaguarda no momento da decisão clínica e os indicadores mostram onde o processo ainda perde tempo.
Métricas como o tempo porta-tomografia e o tempo porta-agulha permitem que a direção técnica acompanhe a linha de cuidado com dados, identifique gargalos específicos de fluxo e direcione as próximas capacitações aos pontos que efetivamente comprometem o desempenho. É essa lógica de melhoria contínua que também sustenta processos de certificação internacional, como os promovidos pela World Stroke Organization (WSO) e pela Angels Initiative.
O IMCELER opera o TeleAVC®, primeiro serviço comercial de telestroke 24/7 do Brasil, com canal 0800 dedicado, avaliação remota de exames de imagem e suporte em tempo real ao médico emergencista na decisão sobre trombólise. O modelo mantém o paciente no hospital de origem durante a avaliação inicial e amplia o acesso da equipe local a suporte neurológico especializado no momento em que ele é mais necessário — sem substituir o julgamento clínico de quem está à beira do leito.
Próximos passos
A expectativa é de que a capacitação de agosto de 2026 seja seguida de novas rodadas de formação e do acompanhamento sistemático de indicadores da linha de cuidado do AVC nas unidades envolvidas.
Iniciativas como a de Canoas apontam para um movimento mais amplo no sistema de saúde brasileiro: redes municipais que deixam de tratar o AVC como um evento isolado da emergência hospitalar e passam a organizá-lo como linha de cuidado integrada, com protocolo comum entre pré-hospitalar e hospital, equipes treinadas em todos os turnos, retaguarda especializada disponível 24 horas e indicadores acompanhados de forma sistemática. É esse conjunto — e não cada elemento isoladamente — que sustenta um atendimento reprodutível em qualquer dia e qualquer plantão.
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