Jornada Acadêmica da Gestão em Saúde da UFCSPA reúne líderes de hospitais e instituições de saúde gaúchas

A Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) realizou, nos dias 15 e 16 de outubro de 2026, a VIII Jornada Acadêmica da Gestão em Saúde, no Teatro Moacyr Scliar, no Prédio 2 do campus, em Porto Alegre (RS). Em duas noites e oito painéis, o encontro colocou estudantes de graduação diante de quem decide, na prática, os rumos de hospitais, operadoras e da gestão pública da saúde no Rio Grande do Sul. Estavam no palco gestores do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, do Hospital Moinhos de Vento, da Unimed Porto Alegre e da Secretaria Estadual da Saúde.
Inovação tecnológica, criação de valor, liderança, gestão de riscos e empreendedorismo atravessaram a programação, que tem formato de ação de extensão universitária. O tema comum foi um só: como formar gestores capazes de manter instituições de saúde sustentáveis em um setor cada vez mais tecnológico, regulado e pressionado por custos.
Um curso que forma gestores para o sistema de saúde
A jornada é uma iniciativa ligada ao bacharelado em Gestão em Saúde da UFCSPA. O curso foi criado em 2014, é oferecido no turno da noite, tem nove semestres e recebeu Conceito de Curso 5, a nota máxima do Ministério da Educação, em 2018. Ele forma profissionais para planejar, organizar e avaliar serviços públicos e privados de saúde, uma função que costuma ser exercida por profissionais da assistência que aprenderam gestão no próprio trabalho.
A UFCSPA também ajuda a explicar a relevância do encontro. A instituição nasceu como Faculdade Católica de Medicina, que começou a funcionar em 1961. Foi federalizada em 1980 e se tornou universidade pela Lei nº 11.641/2008. É uma universidade federal dedicada às ciências da saúde e fica ao lado do complexo hospitalar da Santa Casa, no centro de Porto Alegre.
Santa Casa, Clínicas e Secretaria da Saúde abrem o debate sobre liderança
A primeira noite reuniu um painel dedicado à Santa Casa de Porto Alegre, com o tema “Os novos rumos da saúde: inovação tecnológica, gestão eficiente e liderança transformadora”. Participaram Cássio Cassel, gerente de Ensino e Pesquisa, Roberta Paulikevis, gerente médica corporativa, e Alexandre Formighieri, gerente hospitalar.
Alceu Alves da Silva, vice-presidente da MV, empresa de sistemas de gestão em saúde, conduziu o painel “O futuro da gestão hospitalar”. Ex-diretor-geral do Sistema de Saúde Mãe de Deus e membro da Academia Brasileira de Administração Hospitalar, ele trouxe ao público uma das trajetórias mais longas da administração hospitalar gaúcha.
Ana Paula Coutinho, diretora administrativa do HCPA, falou sobre as “Competências que o mercado procura em um gestor de saúde”. Ela é administradora hospitalar e mestre em Epidemiologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em seguida, Luiza Maria Plentz, sanitarista da Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul (SES-RS), discutiu como formar líderes capazes de enfrentar os desafios da saúde pública.
Criação de valor reúne Unimed, Moinhos de Vento e Hospital de Clínicas
A segunda noite começou com a pergunta que orienta boa parte da gestão hospitalar contemporânea: “Como as organizações de saúde estão criando valor em um mercado cada vez mais tecnológico e competitivo?”. Debateram o tema:
- Ana Carolina Francisco, gerente do Escritório de Valor da Unimed Porto Alegre.
- Rafael Martins Lopes, gerente de Suprimentos do Hospital Moinhos de Vento.
- Juarez Leites, coordenador de Qualidade e Riscos do Hospital Moinhos de Vento.
- Jorge Luis Bajerski, assessor de Planejamento e Avaliação do HCPA e ex-diretor administrativo do hospital.
Na sequência, Aline Hentz e Carla Pandolfo, consultoras da CALLIH Gestão em Saúde, apresentaram o painel “Gestão da saúde do futuro: tecnologia, inovação e novos negócios”.
Empreender em saúde começa pelo problema, não pela solução
O painel seguinte, “Empreender na saúde: desafios e oportunidades”, ficou a cargo de Diógenes Zãn, CEO do IMCELER. Ele é neurologista e neurorradiologista intervencionista, formado em Neurologia pelo HCPA e com atuação anterior na coordenação da linha de cuidado do AVC da Santa Casa de Porto Alegre.
A fala partiu de uma distinção: “Empreender não é abrir uma empresa. Empreender é se apegar a um problema para resolvê-lo”. A partir dela, o palestrante propôs aos estudantes trocar a pergunta “quanto vale a minha hora?” por “qual problema eu resolvo?”. Para sustentar a ideia, recorreu a autores de gestão como Jim Collins, Simon Sinek, Uri Levine e Steven Bartlett.
O caso usado como exemplo foi a escassez de neurologistas fora dos grandes centros, um gargalo assistencial no atendimento ao acidente vascular cerebral. “Ninguém deveria morrer de AVC por causa do CEP onde mora”, resumiu. O IMCELER, instituto de telemedicina de alta complexidade e gestão de linhas de cuidado, nasceu dessa lacuna. Hoje mantém o TeleAVC, serviço de telemedicina em neurologia do instituto, em teleinterconsulta médico-médico 24 horas, com acionamento direto por telefone em numeração exclusiva designada pela Anatel. Ao encerrar, Diógenes deixou aos estudantes o convite a “construir algo que funcione sem você na sala”.

Gestão de riscos como aliada da inovação
O último painel da jornada, “Inovação que gera resultados: casos reais de transformação”, foi mediado por Maria Clara Fossati, da área de Inovação da Unimed Porto Alegre. Engenheira de produção, ela já atuou em inovação hospitalar e em aceleradoras de startups.
Greiceane Roza Vieira, analista da Coordenadoria de Gestão de Riscos e Integridade Corporativa do HCPA, apresentou a provocação central da noite: a gestão de riscos costuma ser associada a problemas, mas deve ser entendida como aliada da inovação. Ela retomou a definição da norma ISO 31000, segundo a qual risco é o efeito da incerteza sobre os objetivos. Também explicou o Modelo das Três Linhas, do Instituto dos Auditores Internos (IIA), em que o gestor de cada processo é o primeiro responsável pelos riscos sob sua gestão. “Não inovar é um risco muito grande. E não somente é um risco, mas é uma perda de oportunidade”, afirmou. Segundo ela, a inovação passou a figurar como quarto pilar institucional do HCPA, ao lado de assistência, ensino e pesquisa. Ela citou ainda a gestão de riscos aplicada a contratos de parceria, a processos de mudança organizacional e à continuidade assistencial em situações de crise.
Gabriela Alerico, gerente executiva do Centro Gaúcho Integrado (CGI), centro de pesquisa clínica especializado em oncologia e hematologia em Porto Alegre, levou a perspectiva de quem estruturou uma organização do zero. Egressa da própria UFCSPA, como lembrou ao público, ela explicou que construir o centro exigiu separar os processos que devem ser preservados, porque garantem a segurança do paciente, daqueles que podiam ser redesenhados. Um exemplo foi substituir o modelo tradicional, em que um único coordenador conduz todas as etapas de um estudo, por uma organização setorizada. “Às vezes é só fazer uma coisa que já existe de um jeito um pouco diferente ou dentro de um mercado diferente”, disse, ao defender a inovação incremental. Sobre o futuro, apontou a inteligência artificial como tendência já presente na pesquisa clínica. Ressaltou, porém, que caberá às lideranças preservar a relação presencial com o paciente.
A mediadora fechou o debate com um conselho aos futuros gestores: buscar soluções também fora do setor da saúde, porque problemas semelhantes muitas vezes já foram resolvidos em outros mercados.
Formação de gestores como ativo do sistema de saúde
A jornada terminou perto das 22h de uma sexta-feira, com o auditório ainda ocupado. Ao reunir, na mesma programação, um hospital universitário federal, uma santa casa centenária, um hospital privado de referência, uma cooperativa médica, a gestão estadual do SUS e empresas do setor, a VIII Jornada Acadêmica da Gestão em Saúde mostrou ao estudante que a gestão é uma competência técnica com impacto direto no acesso, na segurança e na sustentabilidade do cuidado.
O IMCELER participou da programação com o painel sobre empreendedorismo em saúde, coerente com a frente de educação continuada do instituto, que se soma à assistência especializada e à gestão de linhas de cuidado baseada em valor.
FAQ
O que é a Jornada Acadêmica da Gestão em Saúde da UFCSPA?
É um evento anual de extensão ligado ao curso de bacharelado em Gestão em Saúde da UFCSPA, em Porto Alegre. Reúne gestores de hospitais, operadoras e órgãos públicos para discutir com estudantes temas como inovação, liderança, gestão de riscos e criação de valor. A oitava edição aconteceu em 15 e 16 de outubro de 2026.
Qual a diferença entre gestão de riscos assistenciais e corporativos em hospitais?
Os riscos assistenciais estão ligados à segurança do paciente e costumam estar bem estruturados em hospitais acreditados. Os riscos corporativos envolvem compras, contratos, pessoas, tecnologia e continuidade do negócio. Segundo a ISO 31000, risco é o efeito da incerteza sobre os objetivos, e gerenciá-lo serve para aplicar recursos com mais eficiência.
O que significa empreender em saúde para profissionais e gestores?
Na abordagem apresentada na jornada, empreender não é necessariamente abrir uma empresa. É se comprometer com a solução de um problema assistencial concreto, como a falta de acesso a especialistas, e estruturar uma resposta que funcione de forma sustentável e independente de uma única pessoa.
Como é o curso de Gestão em Saúde da UFCSPA?
É um bacharelado noturno de nove semestres, criado em 2014, que forma profissionais para planejar, organizar e avaliar serviços de saúde públicos e privados. O curso recebeu Conceito de Curso 5 do Ministério da Educação em 2018.

