Desospitalização e transição do cuidado pautam podcast da Health Meeting Brasil 2026

A desospitalização foi o tema do episódio do Conexões Health Meeting Podcast gravado em 17 de setembro de 2026, em Porto Alegre, dentro da programação de pré-lançamento da 4ª edição da Health Meeting Brasil / SINDIHOSPA. O programa, que vai ao ar na próxima terça-feira, 22 de setembro, é apresentado pelo jornalista Guilherme Macalossi e produzido com os veículos do Grupo Bandeirantes de Comunicação, reuniu a administradora Adriana Wander, sócia-fundadora e CEO do Grupo ATS e coordenadora do Núcleo de Alta Segura e Desospitalização do Sindicato dos Hospitais e Clínicas de Porto Alegre (SINDIHOSPA), e o neurologista Diógenes Zãn, fundador e CEO do IMCELER.
Health Meeting Brasil ocupa a FIERGS em sua quarta edição
A Health Meeting Brasil / SINDIHOSPA 2026 ocorre entre 22 e 24 de setembro no Centro de Eventos FIERGS, em Porto Alegre. É a quarta edição da feira, realizada pela HM Brasil Feiras e Congressos em parceria com o SINDIHOSPA, e a primeira no complexo da FIERGS – mudança que acompanha o crescimento do evento, apontado pelos organizadores como a maior feira de saúde do Sul do país.
O CEO da Health Meeting Brasil, Gilmar Dalla Roza, e a gerente executiva e gestora de congressos do SINDIHOSPA, Alessandra Dewes, projetaram público superior a 30 mil pessoas e mais de 250 empresas expositoras nesta edição.
O podcast funciona como antecipação editorial da programação científica. Nesta edição, a pauta é a mesma da 3ª Jornada de Transição do Cuidado e Desospitalização, promovida pelo SINDIHOSPA, marcada para 23 de setembro.
O problema começa no que Adriana Wander chama de abismo de informação
Para Adriana Wander, a desospitalização não é a antecipação da alta nem a transferência da lógica hospitalar para a casa do paciente. É a transferência de segurança. Ela sustentou no programa que o ponto crítico da jornada é o momento em que o paciente deixa o hospital com uma prescrição pensada para o ambiente hospitalar e chega em casa sem saber o que executar — e que os serviços extra-hospitalares frequentemente precisam reconstruir informação clínica por telefone, junto à equipe que deu a alta.
A executiva atua no setor desde 1997, quando fundou a Hospitalar ATS, e o grupo reúne hoje operações de atenção domiciliar, gestão de saúde populacional e uma clínica de transição de cuidados. No episódio, defendeu que o gargalo central não é técnico, e sim regulatório: os serviços extra-hospitalares — clínicas de transição, reabilitação, cuidados paliativos e atenção domiciliar — não têm regulamentação específica, o que produz critérios de elegibilidade heterogêneos e um repasse de cuidado sem parâmetro comum entre quem dá alta e quem recebe o paciente.

Reinternação é desfecho clínico ruim e custo evitável
Zãn descreveu o mesmo problema pelo lado do gestor hospitalar. Um paciente que recebe alta sem suporte adequado tende a retornar ao hospital pela emergência — e retorna a um ambiente de maior risco de infecção e de maior custo assistencial, em pronto-socorros já sobrecarregados. A pressão por gerar leito, segundo ele, é legítima e cotidiana em hospitais de médio porte, mas precisa ser acompanhada de transição de cuidado formalizada, sob pena de a alta produzir reinternação em poucos dias.
Os dois convergiram no ponto de fundo: a fragmentação da informação. Prontuários que não conversam entre si, equipes de internação que não se comunicam com quem seguirá o acompanhamento ambulatorial e ausência de interoperabilidade entre sistemas de informação em saúde transformam a alta em ruptura, e não em passagem de bastão.
AVC mostra por que a linha de cuidado não termina na alta
O acidente vascular cerebral foi usado como caso demonstrativo. Segundo o Ministério da Saúde, a doença responde por cerca de 100 mil óbitos por ano no Brasil. Entre os sobreviventes, estimativas amplamente citadas na literatura e na imprensa especializada indicam que cerca de 70% não retornam ao trabalho e cerca de metade passa a depender de terceiros para atividades básicas — números que Zãn apresentou no programa para argumentar que a mortalidade descreve apenas parte do problema, e que a carga de incapacidade recai sobre famílias e cuidadores.
O risco populacional também foi mencionado. O estudo Global, Regional, and Country-Specific Lifetime Risks of Stroke, publicado pelos GBD 2016 Lifetime Risk of Stroke Collaborators no New England Journal of Medicine em 2018, estimou risco global de AVC ao longo da vida de 24,9% a partir dos 25 anos — aproximadamente uma em cada quatro pessoas. Trata-se de estimativa de modelagem global, com intervalos de incerteza e variação regional expressiva, e não de medida direta da população brasileira.
Falta de especialista é problema de distribuição, não só de número
Um dos pontos levantados no episódio foi a impossibilidade de garantir cobertura neurológica de urgência em todos os municípios brasileiros apenas pela formação de mais especialistas. A literatura nacional sustenta a leitura. O estudo Não há escassez, mas sim desigualdade: evolução demográfica de neurologistas no Brasil (2010–2020), de Santos-Lobato e colaboradores, publicado nos Arquivos de Neuro-Psiquiatria em 2023, mostrou aumento do número de neurologistas por 100 mil habitantes no período, mas com desigualdade acentuada entre Norte e Sudeste, fortemente correlacionada a indicadores sociais.
É nesse ponto que a telemedicina especializada se apresenta como recurso de organização, e não como substituto de estrutura. O IMCELER, instituto multiprofissional de telemedicina de alta complexidade fundado em agosto de 2024, opera o TeleAVC, serviço de telemedicina em neurologia do IMCELER, por acionamento telefônico direto: o médico plantonista do hospital contratante disca uma numeração exclusiva designada pela Anatel para a linha de cuidado e fala com o neurologista em teleinterconsulta médico-médico, disponível 24 horas, sem aplicativo e sem plataforma intermediária, com registro da conduta no prontuário eletrônico do próprio hospital. O funcionamento lembra o de uma chamada de emergência, com a diferença de que o canal é restrito à comunicação entre médicos dos hospitais contratantes, não ao público.
No episódio, Zãn sustentou que levar especialista a distância é condição necessária e insuficiente: sem mapeamento da jornada do paciente, capacitação das equipes locais e acompanhamento de desfecho após a alta, a telemedicina resolve o momento agudo e devolve o paciente à mesma descontinuidade.
Jornada de 23 de setembro coloca regulamentação em debate
A 3ª Jornada de Transição do Cuidado e Desospitalização tratará de gestão de leitos, continuidade assistencial pós-alta e integração com modelos de atenção domiciliar. A programação divulgada inclui, às 10h15, a apresentação de experiências e resultados do programa de acompanhamento pós-alta da Unimed Porto Alegre, com o coordenador Júlio Cesar Balem, e, às 15h, painel sobre o impacto dos serviços extra-hospitalares de cuidados paliativos na viabilidade do setor, conduzido por Thieize Zapata, coordenadora do programa Viver Bem da mesma cooperativa.
Segundo antecipou Adriana Wander no podcast, a jornada também contará com a participação da coordenação-geral do programa Melhor em Casa, do Ministério da Saúde, e com um painel sobre famílias sem rede de apoio estruturada.
Para gestores de hospitais de médio porte, filantrópicos e Santas Casas, o recorte é direto: taxa de reinternação em 30 dias, tempo médio de permanência e ocupação de leito não se resolvem apenas dentro do hospital. Dependem de quem recebe o paciente do outro lado da porta — e de haver alguém do outro lado.
O que é desospitalização segura?
É a alta hospitalar planejada com transferência formal de responsabilidade para um serviço ou rede capaz de dar continuidade ao tratamento fora do hospital. Envolve critérios de elegibilidade, prescrição pensada para o ambiente domiciliar e comunicação estruturada entre a equipe que dá alta e a que recebe o paciente.
Qual a diferença entre desospitalização e transição do cuidado?
Desospitalização descreve a saída do paciente do ambiente hospitalar. Transição do cuidado descreve o processo de passagem de informação e de responsabilidade clínica entre níveis assistenciais. Na prática, a desospitalização só é segura quando há transição do cuidado estruturada.
Quando ocorre a 3ª Jornada de Transição do Cuidado e Desospitalização?
Em 23 de setembro de 2026, no Centro de Eventos FIERGS, em Porto Alegre, dentro da programação da Health Meeting Brasil / SINDIHOSPA 2026, promovida pelo SINDIHOSPA.
Como a telemedicina em neurologia atua em hospitais sem neurologista de plantão?
Por teleinterconsulta médico-médico, prevista na Resolução CFM nº 2.314/2022. No modelo do IMCELER, o plantonista do hospital aciona por telefone, em numeração exclusiva designada pela Anatel para a linha de cuidado, e discute o caso com o neurologista em regime de 24 horas, com registro no prontuário do próprio hospital.
Por que reinternação é um indicador de gestão, e não apenas clínico?
Porque o retorno precoce ocorre normalmente pela emergência, em ambiente de maior custo e maior risco de infecção, ocupando leito que seria destinado a novos casos. Reduzir reinternação evitável melhora desfecho e libera capacidade instalada.
Para saber mais sobre a implementação de linhas de cuidado com suporte especializado, acesse imceler.com.br.

