Linha de cuidado do AVC: palestra no Hospital São Carlos discute o papel de cada profissional

A linha de cuidado do AVC — do hábito de medir a pressão arterial à reabilitação após a alta — foi o tema da palestra que o neurologista Diógenes Zãn, CEO do IMCELER, ministrou em 29 de outubro de 2026 no Hospital Beneficente São Carlos, em Farroupilha (RS). O convite partiu da superintendente Janete Toigo e integrou a programação do Dia Mundial do AVC, que reuniu profissionais assistenciais e administrativos do hospital e representantes das secretarias de saúde e da atenção básica dos municípios da região.
Por que o Dia Mundial do AVC é celebrado em 29 de outubro
Diógenes abriu a fala com uma imagem da Cidade do Cabo, na África do Sul. Foi ali, em 29 de outubro de 2006, durante um congresso mundial de AVC, que a International Stroke Society e a World Stroke Federation se uniram para formar a World Stroke Organization (WSO). A data de criação da entidade passou a marcar o Dia Mundial do AVC.
A linha de cuidado começa antes da porta do hospital
O eixo da palestra foi mostrar que o desfecho de um paciente com AVC depende de muitos atores além do neurologista. Diógenes pediu que levantasse a mão quem tivesse um familiar ou amigo acometido pela doença — e a maior parte do auditório levantou. A partir daí, percorreu as etapas da linha de cuidado: prevenção na atenção básica, com controle da pressão arterial, abandono do tabagismo e atividade física; reconhecimento dos sinais pela população; chegada rápida a um hospital preparado; tratamento da fase aguda; e transição de cuidado na alta.
O reconhecimento dos sintomas, disse, é um gargalo subestimado. O AVC raramente dói, e sinais como boca torta, fala alterada e braço pesado costumam ser atribuídos a cansaço, frio ou nervosismo. Em sua pesquisa de mestrado, conduzida com pacientes do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, 41% não procuraram ajuda médica na primeira hora de sintomas, segundo apresentou. Para ilustrar a dimensão da doença, comparou o número anual de mortes por AVC no país à queda diária de vários aviões comerciais — tragédias que mobilizariam a opinião pública, ao contrário de uma doença cujos sobreviventes, muitas vezes, deixam de circular no trabalho e na rua.
Hospital como sistema complexo: processos e pessoas
Para os gestores presentes, Diógenes descreveu o hospital como um sistema complexo, em que a relação entre as partes pesa mais do que cada parte isolada. A variabilidade de processos, explicou, gera desperdício e atraso — e, no AVC, atraso significa pior desfecho. Recorreu ao futebol: nenhum craque vence sozinho, e o técnico, que não marca gols, é decisivo para o time, assim como os gestores que não atendem pacientes. Defendeu que os indicadores cheguem a quem está na ponta, retomando um princípio clássico da administração: o que não se mede não se gerencia.
Escassez de especialistas e telemedicina com responsabilidade
Citando a Demografia Médica no Brasil, Diógenes contrastou o número de hospitais com o de neurologistas no país — insuficiente para garantir especialista presencial 24 horas em cada serviço. A telemedicina aparece, nessa leitura, como forma de distribuir conhecimento especializado, desde que dentro das regras: a Resolução CFM nº 2.314/2022, que regulamenta a telemedicina, e a Lei nº 14.510/2022, que disciplina a telessaúde no país, formam a base dessa prática, com exigências como o registro do atendimento em prontuário.
No modelo do IMCELER, apresentado como exemplo, o acionamento do TeleAVC, serviço de telemedicina em neurologia do instituto, ocorre por telefone, em numeração exclusiva designada pela Anatel, em teleinterconsulta médico-médico 24 horas: o médico do hospital fala diretamente com o neurologista de plantão, que analisa as imagens e registra a orientação no prontuário eletrônico da instituição. O canal é restrito à comunicação entre médicos dos hospitais atendidos, e não ao público.

Os cinco baldes do sucesso profissional
Aos profissionais em início de carreira, Diógenes recorreu ao livro “Diário de um CEO”, de Steven Bartlett, para descrever cinco “baldes” que se enchem em sequência: conhecimento, habilidades, rede de relacionamentos, reputação e recursos. “Reputação é o que pensam da gente na nossa ausência”, resumiu. A mensagem: remuneração é consequência, e tudo começa no conhecimento — como o compartilhado no Dia Mundial do AVC.
Educação nas escolas e o caminho para Cidade Angels
A palestra terminou com a experiência do FAST Heroes, programa da Iniciativa Angels que ensina crianças a reconhecer os sinais do AVC e acionar o SAMU. Diógenes contou como levou a proposta à Secretaria de Educação de Sapucaia do Sul e defendeu a adesão de todas as escolas do município, e não apenas de um piloto. Sapucaia do Sul foi reconhecida pela Iniciativa Angels, em 2024, como a segunda Cidade Angels do mundo. O convite à Serra foi direto: hospital certificado, SAMU certificado e escolas engajadas formam a base para que um município busque o mesmo reconhecimento.
Quem é o palestrante
Diógenes Zãn é neurologista e neurorradiologista intervencionista, com formação no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, mestre na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde pesquisa a organização da linha de cuidado do AVC, e professor universitário. Fundou em agosto de 2024 o IMCELER, instituto multiprofissional de telemedicina de alta complexidade, gestão de linhas de cuidado e educação continuada. A líder de Serviços do instituto, Sâmia Faria, acompanhou a atividade. Ao final, Diógenes convidou os presentes para a próxima edição da IMCELER Masterclass, encontro de gestores de saúde marcado para 12 de novembro.
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FAQ
O que é linha de cuidado do AVC?
É a organização de todas as etapas do cuidado ao paciente — prevenção, reconhecimento dos sinais, atendimento pré-hospitalar, tratamento agudo, reabilitação e transição de cuidado — com protocolos, responsáveis e indicadores definidos em cada ponto da rede.
Por que o Dia Mundial do AVC é em 29 de outubro?
Porque a World Stroke Organization foi criada nessa data, em 2006, durante um congresso mundial de AVC na Cidade do Cabo, na África do Sul.
Quais sinais de AVC a população deve reconhecer?
Os mais frequentes são boca torta, fala alterada e fraqueza ou peso em um dos braços. Diante deles, a orientação é acionar imediatamente o SAMU pelo 192.
A telemedicina na urgência é regulamentada no Brasil?
Sim. A Resolução CFM nº 2.314/2022 regulamenta a telemedicina, e a Lei nº 14.510/2022 disciplina a telessaúde em todo o território nacional, com exigências como o registro do atendimento em prontuário.

