Segurança da trombólise guiada por telemedicina chega ao World Stroke Congress, em Seul

A segurança da trombólise intravenosa guiada por telemedicina em neurologia foi tema de trabalho brasileiro apresentado no 18º World Stroke Congress (WSC 2026), realizado de 21 a 23 de outubro em Seul, na Coreia do Sul. O estudo, conduzido pela neurologista Natana Ribeiro, do IMCELER, examina a ocorrência de transformação hemorrágica em pacientes com AVC isquêmico trombolisados com a decisão apoiada por neurologista a distância.
Intitulado “Hemorrhagic Transformation Following Telestroke-Guided Intravenous Thrombolysis” (Transformação hemorrágica após trombólise intravenosa guiada por telemedicina), o trabalho foi apresentado na modalidade e-pôster (ePoster Viewing) e tem como coautores o neurologista Vitor Melgar (Coordenador do TeleAVC) e o neurologista e neurorradiologista intervencionista Diógenes Guimarães Zãn (CEO do IMCELER). O certificado de apresentação é assinado pelos três copresidentes do congresso.
World Stroke Congress 2026 marca os 20 anos da World Stroke Organization
O World Stroke Congress é o congresso científico anual da World Stroke Organization (WSO), entidade internacional dedicada à prevenção, ao tratamento e à reabilitação do AVC. A edição de 2026 ocorreu no COEX Convention & Exhibition Center, em Seul, em formato combinado com a International Conference Stroke Update e em colaboração com a Sociedade Coreana de AVC (Korean Stroke Society). O encontro marcou os 20 anos da WSO.
Segundo a Korean Stroke Society, em comunicado divulgado à imprensa médica coreana, o congresso voltou ao país 16 anos depois da 7ª edição, realizada em 2010, com previsão de cerca de 2,5 mil participantes entre pesquisadores, clínicos e profissionais de saúde.
A presidência científica do WSC 2026 foi compartilhada por três neurologistas: Jeyaraj Pandian, presidente da WSO e professor e chefe de Neurologia do Christian Medical College (CMC), em Ludhiana, na Índia, onde também é diretor; Luciano Sposato, professor de Neurologia e chefe do Programa de AVC do London Health Sciences Centre (LHSC), da Western University, em London, Ontário, no Canadá; e Keun-Sik Hong, professor do Departamento de Neurologia da Universidade Inje, na Coreia do Sul.
O Brasil esteve representado no comitê de programa e supervisão científica do congresso pelos neurologistas Octávio Marques Pontes-Neto, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) e editor-chefe da World Stroke Academy, plataforma educacional da WSO, e Gisele Sampaio Silva, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Por que a transformação hemorrágica é a pergunta central da trombólise a distância
A trombólise intravenosa é uma das terapias de reperfusão do AVC isquêmico agudo e depende de tempo: quanto mais cedo é administrada, dentro da janela terapêutica, maior a chance de benefício. Sua complicação mais temida é o sangramento intracraniano. A transformação hemorrágica pode ser assintomática, identificada apenas em exame de imagem de controle, ou sintomática, com piora neurológica, e é por isso que figura entre os principais desfechos de segurança avaliados em qualquer serviço que realiza o tratamento.
No modelo de telemedicina em neurologia, a decisão de trombolisar é tomada pelo neurologista que avalia o caso a distância, em conjunto com o médico emergencista que está à beira do leito. A análise da tomografia, a checagem de critérios de indicação e contraindicação e a orientação da conduta acontecem em tempo real, sem o especialista no local. Medir a ocorrência de complicações hemorrágicas nesse arranjo é a forma de verificar se a decisão remota preserva a segurança do tratamento — e é sobre esse ponto que o trabalho apresentado em Seul se debruça.

Como o TeleAVC estrutura a decisão trombolítica a distância
Os casos que dão origem a esse tipo de análise vêm do TeleAVC, serviço de telemedicina em neurologia do IMCELER, que oferece suporte neurológico ao AVC 24 horas a hospitais públicos, privados e filantrópicos de diferentes regiões do país. O modelo opera como teleinterconsulta médico-médico, nos termos da Resolução CFM nº 2.314/2022: o neurologista orienta o médico do hospital, que segue responsável pelo atendimento presencial do paciente.
O acionamento é feito por telefone, em numeração exclusiva designada pela Anatel para a linha de cuidado do AVC, sem aplicativo e sem plataforma intermediária, com registro da conduta no prontuário eletrônico do próprio hospital. O mecanismo funciona como uma chamada de emergência: o médico plantonista disca um número exclusivo e fala com o neurologista em minutos — com a diferença de que o canal é restrito à comunicação médico-médico dos hospitais contratantes, não ao público.
Produção científica como instrumento de governança da linha de cuidado do AVC
Os três autores do trabalho atuam na linha de cuidado do AVC do IMCELER. Natana Ribeiro integra a equipe de neurologistas do instituto e conduz treinamentos periódicos das equipes médicas dos hospitais parceiros. Vitor Melgar, neurologista com atuação em neurologia vascular, coordena o TeleAVC. Diógenes Guimarães Zãn é diretor técnico e CEO do IMCELER, doutorando na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com pesquisa em organização da linha de cuidado do AVC.
A presença no WSC 2026 se soma a outras frentes de produção científica do instituto no mesmo mês. Em outubro, o IMCELER teve três trabalhos aprovados para apresentação em pôster no Congresso Nacional de Hospitais Privados (CONAHP 2026), promovido pela Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), em São Paulo, abrangendo assistência especializada ao AVC, gestão de linha de cuidado paliativo e educação continuada multiprofissional.
Para o gestor hospitalar, o tema tem consequência prática. A sustentabilidade de um programa de trombólise com suporte remoto depende de indicadores acompanhados de forma contínua — tempo porta-agulha, taxa de trombólise e desfechos de segurança, como as complicações hemorrágicas. Submeter esses dados à avaliação de um congresso internacional é uma forma de expor o método ao escrutínio de pares e de reduzir a variabilidade entre hospitais com perfis distintos.
Dados brasileiros de telemedicina em neurologia no debate internacional
A expansão do atendimento ao AVC em hospitais sem neurologista presencial 24 horas é uma das agendas centrais da organização das linhas de cuidado no Brasil. Evidência produzida a partir da realidade brasileira — com sua diversidade de portes hospitalares, de distâncias e de estruturas de imagem — contribui para que essa expansão ocorra com parâmetros de segurança medidos, e não presumidos.
O trabalho de Natana Ribeiro, Vitor Melgar e Diógenes Guimarães Zãn levou esse debate a um dos fóruns científicos internacionais de referência em AVC, em uma edição que celebrou duas décadas de atuação da World Stroke Organization.
Para saber mais sobre a implementação de linhas de cuidado com suporte especializado, acesse imceler.com.br.
FAQ
O que é transformação hemorrágica após trombólise?
É o sangramento que pode ocorrer na área do cérebro afetada pelo AVC isquêmico após o tratamento trombolítico. Pode ser assintomática, vista apenas em exame de imagem, ou sintomática, com piora neurológica. É um dos principais desfechos de segurança monitorados em programas de trombólise.
A decisão de trombolisar pode ser tomada por neurologista a distância?
Sim, na forma de teleinterconsulta médico-médico prevista na Resolução CFM nº 2.314/2022: o neurologista orienta, a distância, o médico que atende o paciente no hospital. A segurança desse arranjo precisa ser acompanhada por indicadores, entre eles as complicações hemorrágicas — tema do trabalho apresentado no WSC 2026.
Como o hospital aciona o neurologista do TeleAVC?
Por telefone, em numeração exclusiva designada pela Anatel, disponível 24 horas e restrita à comunicação entre médicos dos hospitais contratantes. Não há aplicativo nem plataforma intermediária, e a conduta é registrada no prontuário eletrônico do próprio hospital.
O que é o World Stroke Congress?
É o congresso científico anual da World Stroke Organization (WSO). A 18ª edição ocorreu de 21 a 23 de outubro de 2026, em Seul, combinada com a International Conference Stroke Update e em colaboração com a Korean Stroke Society.
Que indicadores um hospital deve acompanhar em um programa de trombólise com suporte remoto?
Entre os mais usados estão o tempo porta-agulha, a taxa de trombólise entre os casos elegíveis e os desfechos de segurança, como a ocorrência de transformação hemorrágica. O acompanhamento contínuo permite comparar o desempenho do hospital com referências externas e corrigir variações.

